Sou daqueles que toda vez que paro para pensar em que ano estamos tomo um susto. 2007! E eu ainda sonho (ou tenho pesadelos) com a volta do Fusca, com o bug do milênio e com os ataques do Esquadrão Geriátrico de Extermínio (EGE), que nos idos de 1993 Hilda Hilst concebeu para aniquilar políticos corruptos. Alguns dizem que o tempo anda passando mais aceleradamente; outros que as novas tecnologias atulharam o cotidiano de tarefas inúteis (o que nos deixa com o espírito ocupado e com menos tempo para o doce devaneio diário). É um tema excepcional para a escrita de ficção. Para a crítica literária, a meu ver, é um problema ou, pelo menos, um desafio.
Está na hora de alguém escrever uma nova história da literatura brasileira. Não é pouco. Penso nessa necessidade - nessa encrenca, já deve pensar e rir consigo próprio o leitor - por dois ou três motivos. O primeiro, e mais óbvio deles, é que falta de fato uma obra com esse caráter no cenário intelectual e cultural brasileiro. Ou melhor, ela existe e é excelente, mas está defasada. Trata-se da História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi, um clássico no quesito obra de consulta para professores, alunos e desmemoriados em geral. Escrito na década de 70, o livro de Bosi foi ganhando pequenas atualizações à medida que ia sendo reeditado. Pára no comecinho dos anos 90.
A década passada ainda é um território desconhecido: coleções e antologias de poesia foram organizadas, novas editoras abriram e fecharam as portas, trabalhos críticos de fôlego mudaram nossa visão sobre certos clássicos (e outros nada acrescentaram), escritores importantes morreram, colóquios e congressos interessantes (ou não) aconteceram, institutos culturais e outras organizações promoveram encontros literários (em geral chatésimos), revistas literárias de criação, de crítica e de chacota surgiram e desapareceram, a periferia se fez ouvir e publicar, teses foram defendidas, novos escritores se consolidaram como referência da nova safra literária - está tudo desorganizado, pedindo sistematização e análise de conjunto.
Outro motivo, ligado ao primeiro, pelo qual a nossa prosa e a nossa poesia andam necessitadas de um abnegado capaz de lhes organizar historicamente, é o famigerado domínio absoluto do "mercado". Não sei se a queda da taxa de juros e o aumento do PIB ajudariam a literatura brasileira, mas uma narrativa histórica, orientada e com base teórica faria um bem enorme à desordem promovida pelo nosso mercadão editorial. E a própria vitória do mercado sobre todos os demais parâmetros de avaliação poderia (deveria, talvez) ser objeto de discussão e reconstituição histórica. |