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Artigos |
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| edição 24 - Abril 2007 |
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| Êxtase para continuar a se sentir vivo |
| Roth, que não se cansa de experimentar com próprio estilo, retorna à oposição entre corpo e intelecto |
| por Nadine Gordimer |
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| Homem comum, Philip Roth, trad. Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, no prelo |
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Para três dos maiores romancistas do mundo, Carlos Fuentes, García Márquez e Philip Roth, a violenta irrupção do desejo sexual na velhice é a resistência do homem à morte. É a sacudida final da próstata, diria meu velho amigo médico.
Mas o tema não pode ser resumido dessa forma perversa, não quando é abordado na ficção contemporânea desses escritores das duas Américas. Memórias de minhas putas tristes, de García Márquez, Inez, de Fuentes, e A marca humana, Animal agonizante e, agora, Homem comum, de Roth, têm em comum o fenômeno do desejo sexual tardio, apresentado como semelhante ao da adolescência. Quando “pensar é se encher de tristeza”, o último pedido de exuberância é ver o corpo lentamente desnudado; surge então a dúvida sobre a suposta superioridade das recompensas do intelecto. Em Animal agonizante, David Kepesh afirma que o fenômeno é a inegável afirmação do “patrimônio erótico”, e o mesmo vale para Homem comum, o novo protagonista sem nome (talvez porque seja o próprio autor) de Philip Roth.
A história começa quando ele está morto. Mas o reconhecemos imediatamente: exerce uma profissão cultural (ainda que duvidosa) e gosta de passar o tempo pintando; foi casado várias vezes; tem filhos com os quais não se relaciona. É o homem que Roth escolheu, há muito tempo, para suportar o fardo humano, como qualquer escritor seleciona determinados tipos. Antes de morrer, esse jornalista cultural sepultado morou em uma cidade distante durante vários anos. Os parentes, entre os quais uma ex-esposa, estão no túmulo ao lado. Sua filha mais querida, Nancy, decidiu enterrá-lo em um cemitério judeu semi-abandonado, embora soubesse que o pai era ateu: ele amava os pais e ficaria assim perto deles.
Roth exerce o direito de praticar diversos modos literários, mas não se cansa de experimentar com o próprio estilo. Do túmulo o homem é trazido de volta à vida e para um período anterior à sua concepção. Aqui, a cronologia da vida não é a do calendário, mas a das referências cruzadas; logo estaremos em um túmulo ainda mais antigo. Após a recriação da infância do jornalista cultural enquanto espera por uma das “intervenções médicas” que manterão seu corpo geriátrico, ele retorna ao dia do funeral de seu pai. É o mesmo cemitério judeu fundado por imigrantes. A joalheria do pai está viva em sua mente. Aberta em 1933, o negócio sugere bem a audácia dos imigrantes: “Diamantes, Jóias, Relógios”. Para que o nome judeu não “afugentasse ou assustasse os milhares de cristãos, ele estendeu o crédito livremente e nunca quebrou por isso: o benefício gerado por sua flexibilidade compensou”. Um bom homem, reconhece o filho. |
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