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edição 29 - Setembro 2007
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Gonçalo M. Tavares: “Ler para ter lucidez”
por Joca Terron
[continuação]

EL – Da mesma forma, seguindo a derrocada das linhas geográficas, o hibridismo de gêneros literários é uma constante em sua obra. A que isso se deve e como se configura?

TAVARES – Os gêneros literários são quase sempre definidos pelo receptor e não pelo emissor, digamos assim. O que me parece preocupante é que o emissor, o escritor, antes de escrever já se submeta às lógicas de recepção, e portanto se sente na cadeira a pensar: agora vou escrever um romance, agora um poema, agora um conto. Penso que o ponto de partida de um escritor não é um gênero literário qualquer, o ponto de partida é o alfabeto. Há letras e com elas formo palavras, mas posso escrever o que quiser, ir por qualquer caminho. O alfabeto não tem gênero literário. Por isso, por mim, tento sentar-me e escrever, simplesmente. E às vezes sai de uma maneira, outras vezes sai de outra e realmente há livros que eu não sei classificar: são
ensaio, um romance? Por exemplo, eu designo alguns livros que fiz como “bloom books”, outros como “investigações”. Enfim, tento por vezes dar-lhes o nome que me parece mais próprio. Mas alguns textos não sei mesmo o que são. O importante é que façam pensar, aumentem a lucidez do leitor, provoquem se possível reações, outras criações etc.

EL – Suas ficções fazem uso de uma linguagem poética. Gonçalo M. Tavares é essencialmente um poeta?

TAVARES – Não, eu acho que sou um escritor. Escrevo. Depois saem livros muito diferentes entre si. Julgo é que tudo pertence a uma mesma massa de instinto, racionalidade, angústias, ironia etc.

EL – Da mesma forma, sua poesia trava intenso diálogo com a filosofia. É possível filosofar em português? Quando surgirá um livro seu de filosofia pura?

TAVARES – Tenho muito respeito pela filosofia e pelos filósofos. Sou um leitor atento de ensaios. Mas precisamente por esse respeito tenho de dizer que é evidente que não sou um filósofo. Penso que a filosofia e as idéias são muito importantes para a escrita, não gosto de livros que não pensam e não nos fazem pensar. Acho sinceramente que isso é um desperdício. Se neste século a literatura não nos fizer pensar, o que é que nos vai fazer pensar? A televisão, o teatro, o cinema, as artes? Bem, eu acho que tudo isto pode ajudar-nos a pensar, mas, apesar de tudo, penso que a literatura ainda é, e deve ser cada vez mais o espaço por excelência do pensamento, da reflexão, enfim, da lucidez. E não precisa de ser pensamento filosófico, nada disso. Através de uma história podemos fazer pensar. Mas claro que não é uma historieta qualquer, não pode ser novela porque aí a televisão faz melhor. A literatura é outro mundo, é o mundo em que alguém está a ler um livro e pára, se necessário, numa linha, numa frase e interrompe a leitura e a partir dessa frase, se necessário, reflete ou põe em causa toda a sua vida. A literatura tem um tempo que dá ao leitor; na literatura o tempo é do leitor, acho isso muito importante. O mesmo livro de 100 páginas pode ser lido em duas horas, em dois meses, ou em dois anos. E nenhum tempo de leitura é melhor do
que outro. É o leitor que o define.

EL – É raro um autor ter tão organizada sua produção na forma de séries. Sua forma de conceber a literatura é tão racional como essa idéia de serialização sugere?

TAVARES – Não, não sou assim tão racional. Aliás, acho que a organização dos meus livros por linhas e séries é uma maneira de eu tentar colocar alguma ordem na desordem do que vou fazendo. Interesso-me por muitas coisas de várias maneiras e depois de fazer algo tento organizar, até para facilitar a vida do leitor.
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