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edição 29 - Setembro 2007
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Gonçalo M. Tavares: “Ler para ter lucidez”
por Joca Terron
[continuação]

EL – Jerusalém recebeu alguns dos mais importantes prêmios da literatura portuguesa e agora é finalista do Portugal Telecom no Brasil. Devemos nos fiar no atestado de excelência que os prêmios dão? E qual seria esse atestado?

TAVARES – A qualidade dos prêmios depende, antes de tudo o mais, da qualidade dos que dão o prêmio, dos jurados. Se pessoas de qualidade me dão prêmios fico contente. Quanto ao resto, eu considero- me muito filho de Sêneca. As Cartas a Lucílio, de Sêneca, é talvez o livro que mais marcou a minha vida. Tenho uma parte estóica: guardo alguma distância em relação ao que vai acontecendo. O importante é fazer o meu caminho. Prêmios são agradáveis, claro, mas apesar de tudo são coisas laterais ao nosso trabalho.

EL Em certa ocasião, Paulo Leminski disse que, dada a pouca representatividade no mundo de hoje, escrever em português ou não escrever é a mesma coisa. Como você espera ultrapassar as barreiras impostas por uma língua não majoritária?

TAVARES – Bem, apesar de tudo o português é falado por muitos, muitos milhões de pessoas. Não é assim tão minoritário. Há dias estive com escritores eslovenos, e aí a coisa é mais dura. A língua eslovena é falada por 2 milhões em todo o mundo. Isso é mesmo minoritário. Mas é evidente que faz sentido o que Paulo Leminski diz, pois todas as línguas são de certo modo provincianas face à língua inglesa, que é mesmo o centro. De qualquer maneira, felizmente, os meus livros estão a começar a ser muito traduzidos, a uma velocidade pouco comum. Estão a sair, em 12 países, 17 livros diferentes – é bom. Mas, claro, escrever diretamente em inglês é ganhar 50 anos em relação a quem escreve noutra língua.

EL – Você tem sofrido alguma “pressão” para que haja algum habitante lusitano em O Bairro?

TAVARES – Tenho sofrido pressões para várias entradas (risos). Mas em relação ao habitante lusitano ele já lá está, no desenho do projeto do bairro. É o sr. Pessoa, mora no prédio do sr. Pirandello.

EL – Da mesma forma, os leitores brasileiros podem ter esperança de terem um compatriota vivendo em lugar tão ilustre? Um senhor Machado ou uma senhora Clarice, por exemplo? Por falar nisto, os habitantes de O Bairro não sentem falta de mulheres por lá?

TAVARES –O meu Bairro de senhores é um bairro como outro qualquer: há pessoas que se podem mudar para lá, e há outras que podem sair. O senhor Machado era muito bem-vindo ao Bairro, e daria uma grande personagem, tenho a certeza, tal como a senhora Clarice. Aliás, a senhora Clarice tenho a sensação de que se vai mesmo mudar para lá... e, sim, senhoras fazem sempre falta, mas já vivem lá a sra. Wolf e a sra. Bausch.
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