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edição 27 - Julho 2007
Hotel América
Quando ele fechou a porta, a palavra América piscou e acendeu, anunciando a noite
por Milton Hatoum
Aquele sábado já tão distante não prometia tumulto. No fim da tarde os dois homens saíram à rua quase ao mesmo tempo. O primeiro deixou uma pensão modesta, na esquina da Joaquim Sarmento com a Sete de Setembro. Lembro que uns cachorros feios dormiam por ali. O segundo homem deixou o hotel América no outro lado da rua coberta de pedras.

Eram altos, talvez altos demais para um menino sentado num carro pequeno. O terceiro homem estava ausente: era meu tio, que tinha acabado de entrar em seu escritório na Joaquim Sarmento para apanhar um documento. Devia esperá-lo dentro do carro, e assim fiz.

Os dois homens se encontraram no meio da rua: estavam bem vestidos, roupa engomada e sapatos engraxados. Alinhados, como se dizia. Um deles, ao tirar o chapéu, mostrou a cabeça calva e avermelhada. O outro, de cabelo grisalho, tinha o rosto dividido por uma pequena mancha preta. Eu era tão jovem que não sabia calcular a idade deles. Quarenta ou cinqüenta anos? Eu tinha onze, e minha infância terminou naquele anoitecer.

Me impressionou a deferência quase cavalheiresca do encontro: o aperto de mãos breve, mas cordato. Não podia escutar a conversa dos dois, mas podia intuir a cumplicidade entre amigos. Porque eles se olhavam mais do que falavam. E em algum momento sorriram.

Se todos os homens fossem assim, haveria menos ódio?
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Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, com o qual conquistou os prêmios Jabuti, como o livro do ano na categoria ficção, e Portugal Telecom, em primeiro lugar