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Artigos |
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| edição 27 - Julho 2007 |
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| Hotel América |
| Quando ele fechou a porta, a palavra América piscou e acendeu, anunciando a noite |
| por Milton Hatoum |
[continuação]
Seis batidas dos sinos da matriz soaram na tarde que se acabava: mais um sábado sem graça, no começo de uma juventude entediada. O que haveria além da praça, além do rio e da floresta? Os dois homens vinham de muito longe, de um lugar que só cabia na imaginação. Forasteiros. E alguma coisa os unia na cidade estranha. Não pareciam turistas. E só no dia seguinte soube o nome e a profissão deles, mas isso não importa.
Despediram-se com um cumprimento mais demorado e caloroso. O grisalho ofereceu ao outro um cigarro, ambos fumaram em silêncio, enquanto a fachada dos edifícios e as palmeiras da praça perdiam o brilho no pôr-do-sol precipitado do equador.
O calvo ficou parado, o chapéu preso ao sovaco do braço esquerdo, a mão direita solta, o cigarro na boca: um ponto avermelhado que acendia e apagava, a fumaça expelida pelo nariz em brasa. O homem grisalho começou a andar na minha direção. Eu ia me abaixar para não ser visto, mas permaneci sentado, pois ele olhava as pedras da rua e caminhava lentamente, como se cada passo, curto e calculado, reiterasse uma decisão grave. Parou a poucos metros do carro; então notei que a mancha no rosto era um bigode espesso, que o envelhecia e dava-lhe um ar destemido. Em algum momento virou o rosto para a porta do escritório do meu tio. Um mau presságio invadiu meu pensamento, como um ruído na tarde quieta. Depois o homem grisalho olhou para a fachada do hotel América, e sorriu para alguém que eu não pude enxergar. Ou sorriu para ele mesmo, como acontece com você, com todos nós em algum momento do dia ou da vida.
Mais longe de mim, o calvo continuava no mesmo lugar, o cigarro no centro do rosto sério. O chapéu de abas curtas, cinzento e feio, estava no chão, perto dos pés.
O grisalho ficou de frente para o outro. Assim, parados como dois homens de pedra, eles enchiam a rua de austeridade. Esperavam por alguém ou se despediam em silêncio. Um silêncio demorado, estranho. Não sei por quê, senti medo; ou tive consciência de que algo podia acontecer na cidade, na vida. |
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 | Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, com o qual conquistou os prêmios Jabuti, como o livro do ano na categoria ficção, e Portugal Telecom, em primeiro lugar |
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