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Artigos |
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| edição 27 - Julho 2007 |
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| Hotel América |
| Quando ele fechou a porta, a palavra América piscou e acendeu, anunciando a noite |
| por Milton Hatoum |
[continuação]
Na porta do escritório entreaberta apareceu o rosto do meu tio. Acenei para ele com timidez, e sua resposta foi um gesto rápido e brusco, que eu não entendi. Quando ele fechou a porta, a palavra América piscou e acendeu, anunciando a noite. Na única janela aberta do hotel vi, de relance, a cabeça de uma mulher, o cabelo amarelo tapando a metade do rosto. Parecia uma pintura com pouca luz, emoldurada por sombras; pensei no quadro de um amigo que queria ser artista, mas foi o pensamento de um instante porque um barulho seco e forte me assustou. Na rua, o homem calvo segurava uma pistola e pisava o chapéu, a bagana ainda na boca. Vi várias pessoas na calçada do América. Uma mulher alta e loura correu no meio da rua e sumiu como um fantasma. Saí do carro, procurei o homem grisalho e vi a mulher debruçada sobre o corpo dele, beijando-lhe os olhos. Ia me aproximar dos dois, mas meu tio segurou meus braços e disse Volta para o carro. Ainda insisti, porque nunca tinha visto uma mulher beijar um rosto ensangüentado.
Entra e vamos embora, gritou meu tio. Ele está morto. Morreu no duelo.
Eu olhava a mulher em prantos, beijando o morto e tentando erguê-lo. O outro, o calvo, era um homem quieto. Ninguém ousava se aproximar dele. Cuspiu a bagana, largou a pistola e cruzou os braços.
Quando o carro deu marcha a ré, perguntei por que tinham duelado. Por paixão, disse meu tio. Amor louco, ciúme... Os homens matam e morrem por ciúme e dinheiro. |
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 | Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, com o qual conquistou os prêmios Jabuti, como o livro do ano na categoria ficção, e Portugal Telecom, em primeiro lugar |
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