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edição 2 - Junho 2005
Literatura fora do eixo
por Cristovão Tezza
Escritor de Curitiba, passei a vida ouvindo cobras e lagartos de um maléfico “eixo Rio-São Paulo”, responsável por crimes literários que começariam com o esmagamento dos escritores regionais, sem espaço na grande imprensa brasileira, e terminariam com o incensamento de autores que, pela simples sorte de terem nascido na metrópole, acabam alçados a uma importância incondizente com a qualidade de suas obras.

Com o tempo, fui percebendo que essa boca maldita curitibana - que aqui assume traços autofágicos - é de fato uma gritaria nacional. Onde quer que se vá, as culpas do eixo desabam sobre a mesa, como se o espaço privilegiado que os grandes centros representam na divulgação de obras e escritores se revelasse apenas mais um funil de exclusão literária. É um beco sem saída: o escritor, isto é, aquele que mergulhou numa atividade que por princípio não é solicitada pela sociedade (confiram nos classificados), e que a rigor não tem nenhum valor de mercado, encontra pela frente a indiferença de sua cidade de origem e se ressente do silêncio da metrópole. Enquanto isso, faz outra coisa para comer. Como bom escritor não dá em árvore, é preciso investigar o quanto há de justiça no queixume, para separá-la do que seria simplesmente uma certa falta de senso de medida. Além do mais, sempre que se fala de literatura, parece que nos eriçamos todos, a um tempo defensivos e agressivos, seres já sem lugar no mundo, sem aura, dessacralizados até o osso, pequenos mendigos de uma grandeza inexistente - o que é outro problema, que se desdobra na falta de bibliotecas, no ensino precário, no preço do livro e em todos aqueles milhares de álibis verdadeiros que nos paralisam. Fiquemos, portanto, nos males mais palpáveis do eixo.

Pelo menos o ponto de partida é verdadeiro: se você - paraibano, catarinense, mato-grossensse - não for publicado numa editora do eixo, você não existe. É bem possível que mesmo editado por uma grande editora você continue invisível, mas a culpa já será outra, e lá vamos nós para a fieira dos álibis. Mas conferindo os nomes que deram à literatura brasileira o per- fil que ela tem, descobrimos que a nossa qualidade tem sido geograficamente ecumênica - Erico Verissimo, Graciliano, João Ubaldo, Drummond, Manuel Bandeira, Dalton Trevisan... Se há de fato um lobby das metrópoles em favor de seus próprios autores, ele é circunstancial e não resiste ao filtro do tempo, ainda que Rio e São Paulo sejam o espaço obrigatório da circulação literária mais relevante do país, e, é claro, contem nomes poderosos. Mas a centralização das metrópoles não é um fenômeno brasileiro - escritor americano quer ser editado em Nova York, o francês em Paris. Com todos os bairrismos, o mesmo acontece aqui.
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