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edição 25 - Maio 2007
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O falso necessário
por Umberto Eco
[continuação]

O que fazer? Impedir o acesso das multidões às obras de arte, indo assim contra qualquer ideal democrático, portando-se como reacionários que louvam os tempos idos, auspiciando a volta do turismo de pouquíssimos? Desestimular as visitas, como já aconteceu com a Última ceia, de Leonardo da Vinci, em Milão, onde o número de visitantes permitido a cada vez, as filas, a antecedência com a qual é preciso reservar fazem com que, de fato, muitas pessoas, apesar de terem suficiente dignidade cultural para tirar proveito daquela experiência, tenham de desistir da empreitada? Lastimar de forma racista que o lugar delas tenha sido tomado por bandos de asiáticos em vôos charter, pessoas que nem sequer sabem direito o que vão ver, assim como para um europeu que vai ao Oriente um templo, no fundo, vale pelo outro, e sempre temos a impressão que quando vimos um deles já vimos todos?

Antes, é preciso tirar proveito das tendências naturais do turismo de massa, que levam a visitar indiferentemente a Pietà Rondanini, última obra de Michelangelo, e o Mulino Bianco, a locação de um famoso comercial de TV. Imaginem quantas pessoas ficarão muito mais satisfeitas com o falso templo de Albanella, inteirinho e reluzente, do que com aquele que sobreviveu com tanta dificuldade em Paestum. Que aquela multidão onívora seja então desviada para Albanella, e que se deixe Paestum para os que o visitam com conhecimento de causa.

Como seria produtiva uma Uffizylândia situada na periferia de Florença, com reproduções perfeitas dos quadros da galeria degli Uffizi. Já que as pessoas se amontoam diante do Palazzo Vecchio para admirar um David que não é o original (mas não sabem disso, ou não se preocupam), por que não deveriam ir à Uffizylândia? Menos bocas impuras colocariam em risco, com seus hálitos mefíticos, a Primavera, de Botticelli.

E não venham me dizer que a discriminação seria “classista”, que separaria os refinados dos trogloditas: é verdade, faria isso mesmo, mas cada qual decidiria se pertence a uma categoria ou à outra por livre escolha e não por sentença social. Aliás, à diferença dos proletários em termos marxistas, os novos proletários da arte sequer saberiam sê-lo, e se considerariam satisfeitos e sortudos por ter visitado, entre tantos, o templo que mais brilha, feito novo.
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Umberto Eco é professor de semiologia da Universidade de Bolonha, na Itália, e autor, entre outros, de A misteriosa chama da rainha Loana, Baudolino, O nome da rosa e o pêndulo de Foucault