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| Ernesto Che Guevara, tema de um dos ensaios, para quem a leitura servia de refúgio para a batalha |
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Há uma fotografia clássica de Ernesto Che Guevara, tomada em meio à desolação da paisagem boliviana, que o mostra montado em uma árvore, sereno como se estivesse em sua poltrona, lendo um livro. Em vez disso, Guevara está em plena guerrilha, em plena batalha, e a leitura lhe serve como um refúgio, como fuga. "Minhas duas fraquezas fundamentais: o tabaco e a leitura", ele anotou em seus famosos Diários. Ao ser preso em Ñancahuazu, Che levava consigo só uma bolsa de couro, atada ao surrado cinturão. Nela estavam um caderno de notas pessoais e alguns livros. E era tudo.
A relação apaixonada que Che Guevara tinha com os livros serve ao escritor argentino Ricardo Piglia como emblema da paixão pela literatura. Paixão que exige certa submissão e, até, certa fraqueza. Visto hoje como um líder audacioso e até imprudente, Che Guevara se concedia desabafos que contradizem esta imagem. Na primeira carta que escreveu para a mãe logo depois de chegar a Sierra Maestra, por exemplo, ele que - como Marcel Proust -, sofria com a asma, admite: "O inalador é mais importante para mim que o fuzil".
Um inalador e um livro, nada mais que isso. E estar sozinho, acima das turbulências do real, mais nada. As relações afetivas, e íntimas, de Guevara com a leitura motivam o mais surpreendente dos seis capítulos de O último leitor (Companhia das Letras), o estupendo livro de ensaios literários que Ricardo Piglia lança na Flip, em Paraty. O último leitor a que o título se refere é exatamente o Che. "Guevara é o último leitor porque já estamos diante do homem prático em estado puro, diante do homem de ação", Piglia explica. |