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edição 11 - Março 2006
Ofício de escritor
por Fabrício Carpinejar
O escritor não é um ser de exceção, fora de série. Não representa um semideus. Empurra o carrinho de supermercado como qualquer um. Por ser tão prosaico é capaz de observar a normalidade de um jeito especial, de se importar com a banalidade e se identificar com o que é descartado.

Escrever é um trabalho solitário, mas a solidão não pode ser blindada pela arrogância. Deve ser uma solidão generosa, que abre sua varanda para as dúvidas, inquietações, diferenças e perplexidades de seus contemporâneos.

Infelizmente a mistificação e a autosuficiência consolidaram o equívoco de que o escritor não depende de mais ninguém, a não ser do talento e da inspiração. E não bastam as críticas para avisar de caminhos possíveis. As resenhas desfavoráveis são classificadas de mal-intencionadas. As positivas reforçam o narcisismo. A impressão é que o escritor nasce pronto e fechado. Na verdade, não ambiciona nem o elogio, e sim a bajulação.

Percebo uma passionalidade no meio autoral. Ou estão comigo ou contra mim. Não se encontra rua intermediária entre adesão e aversão. Faltam equilíbrio, humor e autocrítica, sobram pose e sectarismo. O escritor não consegue imaginar o leitor refugando seu livro. Até imagina, mas não suporta a idéia de não ser um futuro clássico. Não agüenta a hipótese de não ser lido simplesmente por não dar prazer, o que é uma justificava e tanto. Botou na cabeça que a unanimidade o espera. Adota uma postura extremista e autoritária. Confunde leitura obrigatória com leitura obrigada. Quem não gosta do que ele escreve é naturalmente um inimigo. Quem gosta é um aliado.
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