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Artigos |
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| edição 31 - Novembro 2007 |
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| Segredos da Marquesa |
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| por Milton Hatoum |
A Marquesa era uma amazonense que sonhava com o Rio de Janeiro, numa época em que muitos brasileiros sonhavam com a ex-capital, e o mundo, com Paris. Ela morou mais da metade de sua vida num pequeno apartamento de Copacabana. Quando me dei conta – quando você se dá conta –, o tempo já deu suas voltas e foi embora, veloz e involuntário como uma distração. A mulher morreu aos 92 anos, e a primeira lembrança do rosto, do corpo e da voz dela faz quase meio século.
Era mãe de uma amiga minha, mas destoava de outras mães, tão convencionais e carolas, tão donas-de-casa e voltadas apenas para o marido, o lar, os filhos. A Marquesa convidava crianças humildes para brincar com sua filha: crianças que moravam em palafitas na beira dos igarapés próximos do nosso bairro, mas distantes de nossa vida protegida. As mães comuns não permitiam que “indiozinhos” convivessem com seus filhos, mas não podiam viver sem as mãos serviçais das mães desses mesmos “indiozinhos”. Aos sábados, brincávamos e merendávamos no quintal da casa da Marquesa, e às vezes nos levava para assistir a um filme no cine Guarany, o antigo teatro Alcazar. Éramos oito ou dez crianças na matinê de sábado, nossa noite de sonho e fantasia no meio da tarde. Depois da sessão, tomávamos tacacá na barraca de dona Vitória, ali na calçada do cine Odeon, uma das maravilhas de Manaus.
Ao meio-dia, quando eu chegava do colégio Pedro II, ia visitar minha amiga e encontrava a Marquesa na sala, lendo uma revista francesa, ouvindo Bach ou Villa-Lobos; às vezes ela entrava em casa para conversar sobre música com a professora de piano da minha irmã caçula. E entrava também na roda dos homens para falar de política. O marido dela, um homem rígido e poderoso, sumia quando ela falava. Não sei por que casaram, talvez por amor, mas os dois amantes pareciam inimigos, como no poema de Drummond.
Na primeira semana de abril de 1964, ela reuniu os amigos da filha e disse que o país estava nas “garras dos bárbaros”. Eu tinha 12 anos, e não entendi muita coisa do que ela queria dizer. Mas memorizei estas palavras: nas garras dos bárbaros. Aos poucos, ela percebeu que o marido bajulava os milicos, recebia políticos servis e interesseiros, raposas que passaram a freqüentar o quintal de sua casa. Quando eles chegavam com suas garras, cheios de empáfia e triunfo, ela saía ou se trancava no quarto para não ver aquela gente. |
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 | Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, com o qual conquistou os prêmios Jabuti, como o livro do ano na categoria ficção, e Portugal Telecom, em primeiro lugar |
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