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Artigos |
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| edição 31 - Novembro 2007 |
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| Segredos da Marquesa |
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| por Milton Hatoum |
[continuação]
Foi nessa época que começou a beber, e quando bebia muito, era capaz de desafiar até o diabo, com ou sem farda. Por desamor ou indiferença – ou por algo mais –, ela se viu sozinha no casamento e decidiu viajar com a filha para o Rio. Calhou de conversarmos a sós em várias ocasiões, e alguma vez lhe disse que eu também queria partir.
Isso foi em 1967. Eu tinha 15 anos, ela, 51.
E então, na despedida, me revelou que era amante de um homem que eu conhecia e queria viver com ele em Copacabana. Esse era o algo mais. Ou alguém a mais na vida da Marquesa: uma paixão incendiária, como são as paixões de verdade. Essa história de amor durou mais de duas décadas de encontros esporádicos. Ela se confinou em Copacabana e eu dei voltas pelo Brasil, sempre pensando em visitá-la, curioso por saber o nome do amante que eu conhecia. Até simulava uma conversa com ela antes desse encontro prometido e tantas vezes adiado. Enfim, visitei-a em 1978, quando lancei no Rio um livrinho de poesia. Eu era um jovem de 26 anos, recém-formado em arquitetura, e lecionava numa universidade no interior de São Paulo. Almocei em seu apartamento de Copacabana, depois andamos até o Forte, onde conversamos sobre sua filha, minha amiga de infância, que estava morando em Londres.
Ela fugiu das garras dos bárbaros?
A Marquesa deu uma risada:
E das garras da mãe.
No fim da tarde, ela revelou que seu amante – o homem que eu conhecia – era um dos meus tios solteiros.
A revelação me deixou mudo por um momento. Mas não resisti e perguntei qual deles.
O galã sonhador, disse ela, sem hesitar. De vez em quando a gente namora aqui no Rio. Não piso mais em Manaus. |
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 | Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, com o qual conquistou os prêmios Jabuti, como o livro do ano na categoria ficção, e Portugal Telecom, em primeiro lugar |
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