Agora que tudo é permissível e previsível, que o sujeito instável embarca em subculturas ou misticismos, desgarrado na multidão espatifária do globo infundido pelo terror e a técnica, agora que nada mais tem grande sentido - agora teria de ser a vez e a hora das vozes experimentais, dos escritores que ousam postular a instabilidade e o risco. Entretanto, no exato instante em que tudo se desfaz em quase caos, a literatura inteira se deixa reger pelas regras da efabulação linear, seduzida pelas fórmulas que vendem mais.
É mais ou menos proibido ousar. A maior parte dos autores deste primeiro lustro de milênio se rendeu ao mercado dos artifícios. Agora, só autores à margem são capazes dos urros mais brutais e correm com a chama acesa da experimentação. O mais tenaz é o mineiro Evandro Affonso Ferreira, cujos 60 anos de idade merecem comemoração agora mesmo. Seu mais recente livro, Zaratempô!, realiza a façanha de não obter nenhuma atenção da mídia, ainda que contenha um gérmen transformador para a língua portuguesa contemporânea, ou decompositor. Vamos voltar a ele mais tarde. Agora, basta saber que Ferreira é um dos raríssimos discípulos de James Joyce nos trópicos.
Curiosamente, a questão joyceana continua sendo discutida, como se o Ulysses (1922), de Joyce, ainda construísse um enigma indecifrável. A lição modernista embutida nos livros de Joyce é esta: o narrador precisa mostrar os fios que movem os seus fantoches, buscar uma linguagem nova e reinventar a literatura. No Brasil, muitos a seguiram: Guimarães Rosa, Rosário Fusco, Hilda Hilst, Haroldo de Campos e Osman Lins. Cada qual, cada um reencarnou em português o monólogo interior e a corrente de consciência, vivenciou a narrativa e a trama como montagem. O Brasil está se esquecendo desses mestres da transgressão. Seus livros habitam os cemitérios das letras, os sebos que não logram nem mesmo vendê-los em liquidação. Perdeuse o "eraumavezífero", palavra inventada por Osman Lins no seu último romance, A rainha dos cárceres da Grécia (1978), recémrelançado, mesmo que exemplares da primeira edição abundem intocados nas livrarias de segunda mão. |