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| As quatro décadas de “Outsiders” |
| Ao ser lançado, nos anos 60, obra chocou leitores por falar sobre adolescentes que fumam, bebem e brigam |
| por Dale Peck |
Poucos livros contam com uma aura tão rica quanto o romance “Outsiders - vida sem rumo”, de S. E. Hinton, que completa quatro décadas neste ano. Em uma época cujo romance padrão para os adolescentes era, segundo a descrição de Hinton, “Mary Jane went to the prom” (“Mary Jane foi ao baile de formatura”), “Outsiders” chocou os leitores com sua apresentação despudorada de cenas em que adolescentes fumam, bebem e brigam.
Apesar de outros produtos da cultura pop terem abordado esses temas – destaque para “Juventude transviada” e “Amor, sublime amor” –, o público-alvo deles eram os adultos. Já “Outsiders”, a seu turno, oferecia uma história "para adolescentes, sobre adolescentes, escrita por uma adolescente". A narrativa sincera e graciosa de Hinton sobre o conflito entre os Socs, ou Socials, e os Greasers (pode-se substituí-los por Jets e Sharks), publicada quando a escritora tinha 17 anos de idade, transformou-se logo em um sucesso e continua a ser o romance para adolescentes mais vendido da história.
Há tempos considerado o responsável por mudar a forma como se escrevem obras de ficção para adolescentes, o romance de Hinton mudou também a maneira como os adolescentes lêem, dando forças a uma geração a fim de que exigisse narrativas capazes de refletir a realidade dela. Na verdade, na obra, a busca por uma literatura que o represente constitui um dos aspectos centrais da crise existencial enfrentada pelo garoto de 14 anos Ponyboy Curtis. O famoso mote do livro, "Mantenha-se Dourado", é uma referência óbvia ao poema "Nothing gold can stay" (“nada de dourado dura”), de Robert Frost. E então há a declaração não muito crível de que o livro teria sido escrito como "tema" para a aula de inglês de Ponyboy: "Alguém deveria contar o lado dele da história, e talvez as pessoas então compreendessem e parassem de tirar conclusões apressadas". Apesar de sua obviedade, esse conselho parece-me crucial ao livro, fornecendo um contexto para a utilização algumas vezes desajeitada de recursos como #deus ex machina# e antecipação de enredo, para não mencionar a escrita em certos momentos mal ajambrada dele. É provável que, no caso de um adolescente, os tropeços reforcem a autenticidade da voz narrativa. Mas o mecanismo de contar uma história dentro da história faz com que a autenticidade alimentada pela rudeza não passe de uma construção estética. |
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