Incansável Disney
Biografia mostra como o criador workaholic construiu seu império do entretenimento
por Bruce Handy
Walt Disney Pictures talvez seja a mais longeva marca de entretenimento já criada. Vejamos os pares do estúdio, todos forjados, como a Disney, nas décadas de 1910 ou 1920. O que significa, muitas décadas depois, ser um filme da Warner Bros, da MGM ou da Paramount? Quem ainda se importa que uma tenha sido o lar de Humphrey Bogart e Pernalonga, outra de Judy Garland e Gene Kelly, e a terceira, de Preston Sturges, Bob Hope e Bing Crosby? Como marcas, tais estúdios não têm significado para as audiências de hoje, sendo de interesse apenas para pessoas com nomes como Rupert Murdoch e Sumner Redstone.

A Disney, no entanto, ainda é a Disney. Quando minha mãe era uma garotinha, ela sabia o que conseguia com um filme da companhia. Eu também, quando garoto. E também meus filhos hoje (ainda que, com idades de oito e dez anos, estejam mais interessados em programas no Disney Channel). E o que conseguíamos/conseguimos? Entretenimento para toda a família, alegre, com tiradas inteligentes, felizes criaturas da floresta, partes assustadoras, algumas implicações psicológicas ou sociais ocasionalmente perturbadoras e, muitas vezes, - esta é a parte que minha mãe, sentimental, odiou por toda a vida - um animal morto. Apesar de a receita ter se tornado grosseira nas mãos dos mais recentes responsáveis pelo estúdio, a idéia básica permanece.

Mas você, como parte da vasta maioria dos cidadãos do mundo que em alguma altura da vida assistiram um longa ou um curta metragem, ou ainda um programa de TV da Disney, já sabe disso. É provável que um sujeito como você conheça menos o homem que construiu o estúdio e o batizou: Walt Elias Disney, tema da biografia de Neal Gabler, meticulosamente pesquisada, algumas vezes iluminadora, outras fatigante. Quarenta anos depois de sua morte, de câncer do pulmão, aos 65 anos - Disney era um fumante inveterado - o homem em si evanesceu-se. Os suficientemente velhos se lembram do bigode e da voz calorosa, mas áspera, de sua ponta como apresentador do programa "Wonderful world of color" (O maravilhoso mundo da cor). Caso contrário, ele é o George Washington da cultura popular: familiar, mas indistinto; onipresente, mas distante. Como Mickey Mouse, sua criação mais famosa, mas estranhamente sem personalidade, Disney se tornou um logotipo falante. Ele mesmo foi cúmplice disso, ao mesmo tempo incentivando e se indignando com esse fato. Gabler o cita, dizendo a um colega: "Não sou mais Walt Disney. Walt Disney é uma coisa. Cresceu e se tornou um conceito totalmente diferente que um só homem".

O trabalho do biógrafo, claro, é lidar tanto com o conceito como com o homem. E Gabler lida, ao longo de 633 páginas de texto e outras 218 de apêndices, fontes, bibliografia, agradecimentos e índice, mas Disney se mostra um osso duro de roer. Talvez porque ele e sua obra ocupem tanto espaço na imaginação infantil de cada americano vivo, Disney parece ter sido preservado em âmbar brando e arquetípico. Como Gabler escreve na introdução, "Havia sempre algo em Disney que não o qualificava como populista, mas como peculiarmente americano, e, apesar de uma biografia sua ter como subtítulo \\'o americano original\\', ele era menos original em muitos aspectos que fundamental". Isso era um eco afável e condescendente do que o primeiro biógrafo sério, o crítico Richard Schikel, escreveu sobre ele pouco depois da morte de Disney: "Para mim, Disney era um tipo. E parte da fascinação que exercia sobre mim se devia a que fosse um tipo que eu conhecia e com o qual conduzia uma relação de amor e
ódio desde que era criança - o tipo ambicioso do Meio Oeste". Gabler e Schickel têm razão, mas encaremos: escolha de tipos não arma o palco para biografias incisivas.
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