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| Meio século do “pé na estrada” |
| Obra de Kerouac se tornou indiscutivelmente o livro que os jovens de 1957 precisavam, mas o rolo esparso e despretensioso, versão original sem interferência dos editores, é a versão viva para nosso tempo |
| por Luc Sante |
[continuação]
Em “On the Road”, ele é o objeto de amor, à medida que Kerouac o persegue de costa a costa. Ele é a maior voz do livro, um assunto muito mais aparente no rolo, no qual a voz tem permissão para gemer, arremeter e ecoar sem as vírgulas que a amarram no romance. Por exemplo [leitor, sem pontuação]: “Jack quando eu estava trabalhando para a Lavanderia New Era em Los Angeles em 1945 fiz uma viagem para Indianápolis em Indiana com o propósito expresso de ver as corridas do Memorial Day pegando carona de dia e roubando carros à noite para ganhar tempo. Eu estava chegando a uma dessas cidadezinhas nós passamos com um monte de placas de carro sob minha camisa quando um xerife me pegou desconfiado”.
Pode não ser imediatamente aparente a partir de um breve excerto fora de contexto como a falta de pontuação imita a voz que fala — a pressa frenética de semicolcheias que serão pontuadas na metade da página por um estrondoso “Sim!” ou “Siiim!”. Não só os editores do romance adicionaram seis vírgulas desnecessárias, mas o próprio Kerouac pode ser acusado de ter interpolado uma frase, duas expressões e um adjetivo que arrumam e domesticam tanto a personagem como seu jazz (o xerife é “intrometido”, ele “abordou” Moriarty “na avenida principal”, e as placas estão destinadas, de algum modo, a um uso lícito).
Além de trocar todos os nomes (discutivelmente por razões legais) e cortar ou velar as descrições de sexo (bem necessário em 1957), Kerouac alterou o rolo para torná-lo um romance, guarnecendo-o de enfeites e chuviscos literários.
Uma das mais famosas passagens do romance aparece no rolo — as elipses são de Kerouac — como “as únicas pessoas que me interessam são as loucas, as que são loucas por viver, loucas por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam ou dizem uma coisa do senso comum ... mas queimam, queimam, queimam como rojões através da noite”. |
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