O mistério Harry Potter
Como explicar o fato de Voldemort e suas poderosas forças maléficas não conseguirem vencer um órfão cujo nome podia ser de sindicalista inglês, de maneiras doces e particularmente desorganizado?
por Christopher Hitchens
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Harry Potter and the deathly hallows J. K. Rowling Arthur A. Levine Books/Scholastic, 759 págs, US$ 34,99
Em março de 1940, na “meia-noite do século” que marcou a profundidade do pacto entre Hitler e Stálin (ou, em outras palavras, um tempo no qual a civilização estava ameaçada pela aliança entre dois Voldemortes), George Orwell reservou um tempo para examinar o estado de coisas da ficção de fantasia para jovens. E o que ele encontrou (em um ensaio chamado “Boys’ Weeklies”) foi um interesse extraordinário por histórias passadas no ambiente escolar.

Toda semana, meninos (e meninas) dos bairros mais pobres de cidades industriais e das margens mais distantes do império de língua inglesa investiam alguma parte do dinheiro de seu bolso para acompanhar as aventuras de Billy Hunter, Harry Wharton, Bob Cherry, Jack Blake e outros dos habitantes da escola Greyfriars e St. Jim’s. Como ele escreveu: “É bem nítido que há dezenas de milhares de pessoas para as quais cada detalhe da vida em uma escola pública ‘chique’ é terrivelmente excitante e romântico.

Elas podem estar fora daquele mundo místico de pátios e cores de Casas, mas elas podem sentir sua falta, sonhar acordadas sobre isso, viver mentalmente ali por horas a fio. A questão é: quem são essas pessoas?”
Eu desejaria que o veterano atrevido da Eton e St. Cyprian’s tivesse sido capaz de se juntar a mim na noite de publicação de “Harry Potter e as Insígnias Mortais”, quando fui a uma livraria de Stanford, na Califórnia, para retirar minha cópia, sob embargo, para o Book Review. Desconsidere a cabine que dizia “Compre as cores de sua Casa aqui” e lidava com clientes versados nas artes de Corvinal e Sonserina.

No chão da loja, amplamente transformada na casa comunal de Grifinória para a ocasião, dezenas de pequenas crianças estavam sentadas, escutando arrebatadamente uma leitura de um Hagrid massivamente plausível. Das 2 mil pessoas, aproximadamente, no átrio, talvez um terço havia se dado ao trabalho de estar vestindo mantos e outros trajes de Hogwarts ou de quadribol. Muitos usavam um relâmpago na testa: Orwell teria se horrorizado ao ver o símbolo da União Fascista Britânica, de Oswald Mosley, em testas, fora isso, imaculadas, mesmo que o emblema tenha sido domado por novas associações de magia branca. E isso foi um show menor do circo armado em todo o mundo de língua inglesa, e mesmo no mundo de outras línguas, como contagem regressiva para a hora da bruxaria.
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Christopher Hitchens é autor de, entre outros, “Amor, pobreza e guerra”.