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O mistério Harry Potter
Como explicar o fato de Voldemort e suas poderosas forças maléficas não conseguirem vencer um órfão cujo nome podia ser de sindicalista inglês, de maneiras doces e particularmente desorganizado?
por Christopher Hitchens
[continuação]

Eu daria muito para entender melhor esse fenômeno. Parte dele deve ter a ver com a extrema banalidade e conformidade da vida escolar como vivenciada hoje, com tudo voltado para a segurança, por um lado, e comportamento correto, do outro. Mas isso, por si só, não explicaria minha filha mais nova, há alguns anos, sentada por horas com seu cotovelo diminuto amassando as páginas de um livro grosso, ocasionalmente gargalhando com as aparições do rato Perebas. (Ouve-se que nem todas as crianças têm a afeição pela leitura que os livros de Harry Potter inculcam: isso não é verdade em minha casa, pelo menos.)

Perebas acaba se transformando em algo um pouco pior que um rato, e o velho encantamento da metamorfose é algo que J. K. Rowling explorou ao máximo. Outro apelo bem testado, o do herói órfão, também foi intensamente exercitado com as provações do herói epônimo, como as de Copperfield.

Para Orwell, a história escolar inglesa, de Tom Brown a Kipling, esteve intimamente atada a sonhos de riqueza, classe e esnobismo; no entanto, Rowling conseguiu desamarrá-la dessas considerações e dar-nos um mundo de democracia e diversidade juvenis, no qual a humilde figura principal tem um nome que — apesar de ter sido dado a um herói marcial e rei de Shakespeare — poderia também pertencer a um sindicalista inglês.

Talvez a anglofilia continue a desempenhar seu papel, mas, se eu fosse um dos poucos professores de anglo-saxão sobreviventes, eu me regozijaria com a maneira pela qual termos como “muggle” [“trouxa”, na tradução brasileira] e Wizengamot e nomes como “Godric”, “Wulfric” [Wulfrico] e “Dumbledore” se tornaram moeda corrente. Os muitos encantamentos e imprecações em latim também poderiam ajudar a reacender o interesse pelo estudo de uma língua “morta”.
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Christopher Hitchens é autor de, entre outros, “Amor, pobreza e guerra”.