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| O mistério Harry Potter |
| Como explicar o fato de Voldemort e suas poderosas forças maléficas não conseguirem vencer um órfão cujo nome podia ser de sindicalista inglês, de maneiras doces e particularmente desorganizado? |
| por Christopher Hitchens |
[continuação]
Também se reconhece a fórmula da história escolar. Se uma personagem “estrangeira” francesa ou alemã aparece nos romances sobre Harry Potter, isso se dá sempre como um clichê: Fleur e Krum ambos falam como se o fato de ser do “continente” fosse uma piada em si. A proscrição de temas sexuais é também observada de forma meticulosa o bastante, mesmo que, com o tempo decorrido, Rowling deva ter adquirido leitores do sexo masculino que se encontrem tendo pensamentos vagamente impuros sobre Hermíone Granger (se não, pois parece um pouco impossível, sobre Gina Weasley). Mais interessante que tudo, e como percebido por Orwell, “a religião também é um tabu”.
As crianças com idade escolar parecem não saber nada da cristandade; nesse último romance, Harry e mesmo Hermíone ignoram dois versículos bíblicos famosos encontrados no cemitério de uma igreja. Que as personagens principais tenham, no entanto, um forte código moral e um sólido compromisso ético será um mistério para alguns — como Sua Santidade, o Papa, e algumas outras autoridades eclesiásticas que denunciaram a série —, enquanto aparentemente pouco excepcional para outros. Como diz Hermíone, soando convincentemente kantiana ou russelliana sobre algo chamado “Pedra da Ressurreição”: “Como eu poderia possivelmente provar que ela não existe? Você espera que eu segure todas as pedras do mundo e as teste? Quero dizer, você poderia argumentar que tudo é real se a única base para se acreditar em algo é que ninguém tenha provado que isso não exista”.
Apesar de todo esse secularismo aparentemente sólido, é a ontologia que afrouxa a tensão que deveria ter mantido esses contos vívidos e vivos. Os teólogos nunca foram capazes de responder ao desafio que contrasta as afirmações da onipotência e benevolência simultâneas de Deus: de onde, então, viria o mal? A questão é a mesma, mesmo se invertida de maneira maniqueísta: como podem Voldemort e suas forças maléficas ter tanto poder e ainda assim ser incapazes de destruir um garoto de maneiras doces e particularmente desorganizado? Em um conto, essa discrepância poderia ser manipulada e também resolvida rapidamente em favor de um resultado ou de outro, mas, depois de sete livros completos, o mistério, ao menos para este leitor, perde sua habilidade de prender o interesse, e, nesse episódio final, o trabalho, na verdade, torna-se tedioso.
A tática repetida de deus ex machina (sem um deus) tem um efeito deplorável tanto sobre a trama como sobre o diálogo. A necessidade de Rowling de alcançar suas muitas voltas infecta suas personagens também. Eis Harry tentando endireitar as coisas com um servil elfo doméstico: “‘Eu não entendo você, Monstro’, disse ele por fim. ‘Voldemort tentou matá-lo, Regulus morreu para derrotar Voldemort, mas você ainda ficou feliz ao trair Sirius para Voldemort? Você ficou feliz ao ir até Narcissa e Beatriz e passar a informação para Voldemort através delas ...’”. |
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| Christopher Hitchens é autor de, entre outros, “Amor, pobreza e guerra”. |
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