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O mistério Harry Potter
Como explicar o fato de Voldemort e suas poderosas forças maléficas não conseguirem vencer um órfão cujo nome podia ser de sindicalista inglês, de maneiras doces e particularmente desorganizado?
por Christopher Hitchens
[continuação]

Sim, bem, vê-se que ele está confuso. A ação se passa durante um período abismalmente longo no qual o trio Harry, Hermíone e Ron está junto em uma busca, com semanas de tempo para acampar invisivelmente e com apenas algumas escapadas da morte inexplicáveis para aliviar a narrativa. O grande contexto de Hogwarts é removido, ao menos até as cenas finais, e Rowling também se esquece de que as coisas ou são mágicas, ou não são: a família de Hermíone certamente não pode ficar mais a salvo do Lorde das Trevas mudando-se para a Austrália, e o volume corporal de Hagrid não poderia fazer nenhuma diferença em sua habilidade, que seja, de voar em uma vassoura. Um subtexto maçante sobre o bom senso ou não de dizer o nome de Voldemort, enquanto isso, rouba a força do mecanismo apotropaico.

Já por algum tempo, esses romances têm tentado um tipo de dramatização secular da batalha entre o bem e o mal. O Ministério da Magia (uma das melhores invenções de Rowling) busca impor uma versão das leis de Nuremberg sobre a Inglaterra, classificando seus súditos de acordo com o parentesco e mantendo sua própria Gestapo, bem como seu próprio gulag em Azkaban. Mas, novamente, com o tempo e com muitas e muitas páginas, esse cenário falha em gerar empolgação: a maior parte da população de “trouxas” segue sua existência ordinária, e, a cada vez que a polícia secreta se aproxima, nossos heróis conseguem “desaparatar” — um termo que sempre me faz pensar em uma tentativa de George W. Bush de falar inglês. O preconceito contra os duendes do banco monopolista é moldada, mais ou menos, no anti-semitismo, e o tratamento vil dedicado aos elfos pretende nos relembrar da escravidão, mas o efeito geral disso é algo parco e passageiro, sujeito a retornos reduzidos.

Nesse volume final, há uma boa quantidade de fios da meada a serem atados. De que lado Snape realmente estava? Neville Longbottom pode se superar? Os Malfoys são tão ruins como pintados? Infelizmente — e com a sólida exceção de Neville, cuja valentia é bem retratada — essas soluções mostram ser possuidoras de toda a excitação despertada por um tipo antiquado como Perry Mason, ao fazer um resumo, interrompido por uma personagem qualquer que diz “só há uma coisa que eu não entendi...”.
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Christopher Hitchens é autor de, entre outros, “Amor, pobreza e guerra”.