|
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
|
|
|
« 1 2 3 4 5 |
| O mistério Harry Potter |
| Como explicar o fato de Voldemort e suas poderosas forças maléficas não conseguirem vencer um órfão cujo nome podia ser de sindicalista inglês, de maneiras doces e particularmente desorganizado? |
| por Christopher Hitchens |
[continuação]
Quase tudo isso se aplica ao próprio Voldemort, que se torna tão enfadonho quanto um vilão de Ian Fleming, ou o cruel e falante Nicolae Carpathia, da série “Left Behind”, ao oferecer explicações prepotentes que são ao mesmo tempo vazias e grandiosas. Esses hábitos ruins e pedantes persistem até o duelo final, que nos remete novamente aos recintos da velha escola. “Não devemos deixar a luz do dia entrar na magia”, como Walter Bagehot frisou em outro contexto, e o desejo de ter tudo esclarecido eventualmente se derrota, em seus próprios termos. Em sua determinação de descer a cortinar decisivamente, Rowling foi além do que devia e deu-nos nem tanto um final feliz quanto um final que sugere que o mal foi, de fato, derrotado (desculpem-me a expressão) para o bem e o melhor.
Grandes autores — mais notavelmente Arthur Conan Doyle — estiveram no mesmo dilema quando em busca de um final. E, como Conan Doyle, Rowling conquistou renome imperecível por nos dar um herói identificável e uma bela caricatura de vilão, e por tornar uma parte ficcional da estação King’s Cross tão luminosa quanto um endereço na vizinha Baker Street. Como alguém que realmente ia para a escola de trem, aos oito, eu me diverti lendo em voz alta para crianças e chegando ao Beco Diagonal e ao Largo Grimmauld e também estremecendo diante da lembrança de professores sarcásticos (e Ruas dos Alfeneiros) que conheci.
Pode parecer que o final claramente emotivo da história contenha a promessa de uma seqüência, mas acho honestamente e espero sinceramente que isso não ocorra. Os brinquedos foram postos firmemente de volta à caixa, a varinha foi dobrada, e o mágico discretamente aceita pagamentos enquanto as crianças clamam por entretenimento fresco. (Eu recomendo que se dirijam a Philip Pullman, cujo esquema de demônios é mais refinado que qualquer patrono.) É feito grande o suficiente que “19 anos depois”, como quer o título do último capítulo, e, muito provavelmente por muitas décadas após isso, ainda haverá milhões de adultos que se lembrarão de sua iniciação à literatura como um pequeno toque de Harry durante a noite. |
|
« 1 2 3 4 5 |
| Christopher Hitchens é autor de, entre outros, “Amor, pobreza e guerra”. |
|
|
|
|
|
|
|
|