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Resenhas literárias ao gosto do freguês
por Henry Alford
[continuação]

Uma confissão desse tipo pode arrancar uma risada consternada de Jonathan Yardley, do “The Washington Post”, cuja invectiva contra o livro de Shirley Conran “Lace” (“Laço”) – que Yardley considerou um "romancezinho" escrito com “um cinismo diáfano e aguçado” – continha a seguinte frase: "Conran conhece todos os nomes, marcações etc., e ela seguramente sabe onde e quando despejá-los. “Lace” não afunda sob o peso deles, ele eleva-se às alturas – rumo à mesma estratosfera onde se pode encontrar “Valley of the dolls” (“O vale das bonecas”) e “Luxúria”. Folheando alguns jornais meio distraidamente depois de a resenha ter sido publicada, Yardley ficou boquiaberto ao deparar-se com uma propaganda sobre o livro adornada com o seguinte testemunho: “´Ele eleva-se às alturas´ – Jonathan Yardley, Washington Post´”.

"A distorção era tão evidente que me restou apenas dar risada", conta o crítico. “Aquilo me divertiu profundamente. Mas foi uma atitude incrivelmente estúpida da parte da Simon & Schuster”, a editora de Conran. Yardley escreveu depois uma coluna acusando a Simon & Schuster de potencialmente minar a relação de confiança mantida pelo crítico com seus leitores: “É por isso que me vejo irritado e indignado com algo que, de outra forma, ignoraria por considerar, me divertindo um tanto, uma estratégia cinicamente hábil típica dos comerciantes”.

Ao menos um crítico adotou uma postura mais direta a respeito do problema. Christopher Lehmann-Haupt, que escreve no jornal “The Times” há 32 anos e hoje é ele próprio autor de livros, lembra ter sido citado no anúncio de um livro do editor Donald I. Fine de uma forma não muito “pudica”. Ele encontrou-se com Fine em uma festa e disse-lhe: “Pare de fazer isso se você quer que eu continue escrevendo resenhas sobre os seus livros”. Lehmann-Haupt conta: “Ele entendeu a mensagem”.
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Henry Alford é do Book Review