Viúvas do stalinismo na Rússia do pós-tudo
Protagonista sonha com o autoritarismo do passado como solução para os abusos enfrentados pelos russos hoje
por Ken Kalfus
Divulgação
Propaganda Monumental, Vladimir Voinovich, trad. Denise Sales, Planeta, 384 págs., R$44,90
Atualmente relegado ao papel de “oposição patriótica”, com um razoável bloco no Parlamento, o Partido Comunista Russo permanece nas ruas de Moscou, onde seus simpatizantes realizam passeatas, agitam bandeiras vermelhas e criticam o Ocidente. Na maior parte das vezes, a demonstração de força é frágil: os vermelhos hoje compõem-se basicamente de sessentões nostálgicos, que usam roupas antiquadas e vivem deprimidos enquanto desfilam medalhas e broches transformados em mercadoria barata dos mercados de objetos usados. Os protestos não bloqueiam as ruas por muito tempo, permitindo que a capital avance, inabalável, em sua busca por dinheiro, poder, luxúria e sexo.

Esse teatro de rua é recontado com um páthos exagerado em Propaganda monumental, o romance satírico e muitas vezes tocante de Vladimir Voinovich. No final dele, um pequeno e organizado grupo de manifestantes desce a famosa rua Tverskaya, em Moscou. Desesperado por aparecer nos noticiários de TV, o líder do Partido Comunista encabeça a passeata. Mas, quando os corruptos cameramen aparecem, recusam-se a começar a gravar por menos de US$ 10 mil. Como se isso não bastasse, a passeata é impedida de avançar por policiais entediados. Nervosa, uma manifestante idosa fura o bloqueio, bate a cabeça contra um escudo de proteção e cai no chão.
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