Toda prosa
  
01 de setembro de 2005
A cassação e o sacrifício
Livro ajudaria políticos a refletir sobre o sentido de cortar na carne
por Oscar Pilagallo
Num momento em que se discutem cassações, seria instrutivo aos congressistas a leitura de Sobre o sacrifício. É um ensaio curtinho, pouco mais de cem páginas, tamanho conveniente para os muito ocupados. O livro, que está saindo pela Cosac Naify, os ajudaria a compreender outras dimensões do ritual por que passam. Já que sacrifícios são inevitáveis, então que se entenda o que eles podem significar para além do ramerrão da política cotidiana.

O texto, do final do século XIX, foi escrito por dois pesos-pesados da sociologia francesa: Marcell Maus (mestre dos antropólogos Lévi-Strauss e Roger Bastide) e Henri Hubert. O foco deles é o sacrifício de animais num contexto religioso. Mas, como chamam a atenção para a função social do sacrifício, talvez a leitura menos literal que estou fazendo não seja totalmente inadequada.

Pouco tempo atrás, o presidente Lula, diante de graves acusações contra o governo, falou em cortar a própria carne. Logo em seguida, José Dirceu, seu braço direito, deixou o governo. A metáfora, como se viu, não era retórica vazia. Mas talvez tenha sido pouco. O sacrifício, para surtir efeito, precisa guardar relação com o apetite dos deuses.

O livro lembra uma passagem bíblica que deve ser lida com discernimento pelos políticos. Está lá: "Moisés não havia circuncidado seu filho, e Javé veio `lutar´ com ele numa estalagem. Moisés estava morrendo quando sua mulher cortou violentamente o prepúcio da criança e o lançou aos pés de Javé, dizendo-lhe: `És para mim um esposo de sangue´. A destruição do prepúcio satisfez o deus, que não mais destruiu Moisés redimido".
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Oscar Pilagallo é jornalista e autor de A História do Brasil no século 20 (em cinco volumes), O Brasil em sobressalto e A aventura do dinheiro, todos pela Publifolha.