Toda prosa
  
01 de março de 2006
As histórias são iguais, só mudam os heróis
 
No começo do século XX, o folclorista russo V.I. Propp (1895-1970), após estudar contos populares, concluiu que as histórias se repetiam. Mudava apenas o nome das personagens (e seus atributos). As suas ações - ou funções, como ele preferia chamar - eram as mesmas. Propp dissecou histórias, fez cálculos e tabelas, e chegou ao número de 31 funções que se repetiam em seqüência idêntica. A saga do herói começava com algo como morte ou afastamento de alguém da família; depois alguma proibição era imposta a ele; e seguia em uma sucessão de provações que culminava no castigo do inimigo, no casamento do herói e na sua chegada ao trono.

A visão proppiana se encontra em Morfologia do conto maravilhoso russo, lançado pela primeira vez em 1928, que acaba de ser reeditado pela Forense Universitária. A nova edição, traduzida diretamente do russo, tem organização e prefácio de Boris Schnaiderman e inclui textos que ajudam a entender o debate que ocorreria nos anos 60 entre Propp e Lévi-Strauss. Na época o livro de Propp se tornara praticamente uma cartilha; os críticos reagiram, dizendo que suas normas não eram gerais.

"Há qualquer coisa de patético, nesse afã de Propp de reduzir todas as histórias a funções designadas por uma letra grega e um número, 31 ao todo, e esta insistência no 31 acaba parecendo algo cabalístico", diz a personagem principal, sem nome, de Agora é que são elas, o romance-gozação de Paulo Leminski (1944-1989) nos anos 80. O Propp da sua história é o seu analista, um misto de Freud com o Propp verdadeiro, que aplica sua cartilha para tratá-lo e o alerta com frases como esta: "Você está saindo da parte preparatória. Já está além da função gama-1, a proibição. Já passou pela transgressão da proibição, a função delta-3. Agora está ingressando na zona A, a Região do Dano. De agora em diante, todo cuidado é pouco. Mas pode confiar que vamos fazer tudo que estiver a nosso alcance para que ultrapasse essa área com um mínimo de escoriações." Em tempo: Agora é que são elas está esgotado