Toda prosa
  
01 de janeiro de 2006
Carmen Miranda, o pequeno grande mito
por João Marcos Coelho
Nada como recolocar a verdade em seu lugar adequado. Ou pôr os pingos nos "is", como se dizia nos anos 30. Ruy Castro faz isso com maestria incomparável na biografia de Carmen Miranda. "Um chuá", diria a cantora

O livro tem quase 600 páginas de pura informação, mas lê-se com tamanho prazer que mal se percebe o esforço da pesquisa que enriquece a construção da figura artística e humana da primeira cantora brasileira a efetivamente conquistar um lugar de honra na Broadway nova-iorquina e depois no cinema, em Hollywood. Mas Ruy é o primeiro, ainda, a chamar a atenção para o fato incontestável de que Carmen foi a mais importante cantora no cenário da música popular brasileira nos anos 30.

É praticamente impossível encontrar algo fora do lugar nessa biografia, que é definitiva. Ruy não rumina nem deduz; vai aos fatos, pesquisa, e transforma tudo numa prosa irresistível. Recorre aos fatos para desmascarar, por exemplo, o jornalista David Nasser, "no apogeu de sua canalhice", que fez uma vergonhosa série de 32 artigos semanais na revista O Cruzeiro, então com 700 mil exemplares, entre dezembro de 1948 e julho de 1949, contendo invencionices e falsidades deliberadas, maldosas.

Desmente gostosamente os rumores de que Carmen, vizinha de Getúlio Vargas na década de 30, no bairro do Catete, tenha sido sua amante, como aventaram alguns ("incompatibilidade básica: os dois tinham quase o mesmo 1,52 metro - Getúlio um ou dois centímetros a mais - e só gostavam de parceiros altos"). Constrói um magnífico painel da vida carioca na primeira metade do século XX, com admiráveis requintes. Personagens como Almirante, Pixinguinha, Assis Valente, Alcyr Pires Vermelho, e cantores como Francisco Alves, Mário Reis, ganham deliciosos perfis.
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