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Toda prosa |
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| 01 de outubro de 2005 |
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| Destinos danados |
| Com Cinzas do Norte, Milton Hatoum reafirma sua qualidade rara e seduz o leitor pelo mosaico de desencontros vividos por personagens tão úmidos e viscosos quanto a natureza amazônica |
| por Daniel Piza |
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| Guimarães Rosa, na epígrafe de Cinzas do Norte: "Eu sou donde eu nasci" |
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Se você leu Dois irmãos, de Milton Hatoum (2000), eleito em enquete recente do Correio Braziliense como o melhor romance brasileiro dos últimos 15 anos, e sentiu o desencanto vindo da desagregação daquela família de imigrantes libaneses em Manaus, Cinzas do Norte vai surpreendê-lo: o desencanto é mais agudo ainda. O novo romance de Hatoum parece adequado aos tempos sombrios dos últimos cinco anos, não só por atentados terroristas em capitais ocidentais, mas também por estelionatos eleitorais em território nacional. Quem procura um norte só vai encontrar cinzas; quem quer fugir para a cor local só vai achar a melancolia universal. Hatoum constrói para o leitor um mundo que se esfarela por todos os lados.
Em Dois irmãos entramos num microcosmo rachado entre os gêmeos Yaqub e Omar, de temperamentos opostos, e o livro extrai sua força da narração feita pelo agregado da casa, que vivencia o afastamento entre ambos. Em Cinzas do Norte a história contrapõe duas famílias, uma rica e a outra pobre, e os pontos de vista se multiplicam à medida que a história vai revelando hiatos e reversões. Se o romance anterior tinha o poder intrínseco ao drama do núcleo familiar, o novo seduz o leitor pela costura oculta, pelo mosaico de desencontros. Em Dois irmãos vemos uma solidez desmoronar. Em Cinzas do Norte mal entramos, e a sensação fragmentária se instala; não estamos diante de uma ordem que passo a passo implodirá, e sim de uma desarmonia vigente. A trama de Dois irmãos tinha maior energia intrínseca, mas em Cinzas do Norte Hatoum deu mais vazão à ironia e à amargura.
Os personagens são patéticos, desgraçados, são úmidos e viscosos como a natureza amazônica; nem por isso deixamos de nos sentir em suas peles, de partilhar sua dor e impotência. Isso é o que só grandes escritores podem fazer. Hatoum também abre mais espaço para a descrição de exteriores, embora seja por excelência um escritor intimista, e tal combinação reafirma sua qualidade rara na literatura brasileira, tradicionalmente polarizada em tais abordagens. Ele capta o clima e a topografia de sua região, mas não é um regionalista; ao mesmo tempo, cria uma galeria de personagens com profundidade psicológica, sem fazer literatura urbana. Como Graciliano Ramos ou Juan Carlos Onetti, seu quadro vai do meio ambiente ao vazio da alma, fundindo o social e o existencial.
Não por acaso a epígrafe é de João Guimarães Rosa: "Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares". E não por acaso seu personagem principal se chama Mundo, de Raimundo, um jovem artista visual que nasce e cresce na Amazônia e dela parte para Alemanha e Inglaterra, mais para perder o mundo do que para ganhá-lo, mais rima do que solução. O narrador, Lavo, advogado que sabe que nunca vai deixar sua cidade, o conhece do Colégio Dom Pedro II, onde Mundo era amolado pelos colegas por desenhar o tempo todo e ser filho mimado de mãe endinheirada, Alícia, casada com Trajano Mattoso, ou apenas Jano, um empresário que produz juta, borracha e outras mercadorias para exportação na Vila Amazônia, em Parintins. A mãe de Lavo, Raimunda, morreu quando ele era pequeno, e quem o cria é sua tia Ramira, uma costureira que se mudou do Morro da Catita para a Vila da Ópera, no centro da cidade. O irmão de Ramira, Ranulfo, o tio Ran, é outro desses personagens machadianos de Hatoum, um desocupado, um "cigano" que vive entre farras e livros e não quer trabalho nem responsabilidade, embora queira dinheiro e mulheres. |
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