Toda prosa
01 de outubro de 2005
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Destinos danados
Com Cinzas do Norte, Milton Hatoum reafirma sua qualidade rara e seduz o leitor pelo mosaico de desencontros vividos por personagens tão úmidos e viscosos quanto a natureza amazônica
por Daniel Piza
Juan Carlos Onetti, de cuja temática Hatoum se aproxima
[continuação]

A grande decepção é com o Brasil, com a injustiça social que tanto direita como esquerda só fazem fingir que combatem, e é nesse jogo de máscaras que os mitos se desintegram. É o Brasil que Mundo vê, por exemplo, ao norte de Manaus, onde a floresta foi devastada para dar lugar ao Novo Eldorado, que nada mais é que uma metáfora das periferias de grandes cidades de todo o país: "Mundo contou que no internato tinha pesadelos com a paisagem calcinada (...). Visitara as casinhas inacabadas do Novo Eldorado, andara pelas ruas enlameadas. Casinhas sem fossa, um odor medonho. Os moradores reclamavam: tinham que pagar para morar mal, longe do centro, longe de tudo... Queriam voltar para perto do rio. (...) Os moradores do Novo Eldorado eram prisioneiros em suas próprias cidades".

Da metade do livro em diante, as frustrações, autodestruições, prisões e mortes se sucedem. Também a questão da arte diante dessa realidade é levantada. Mundo, afinal, quer que ela seja uma "desforra", uma vingança contra o estado absurdo e cruel das coisas. Acha que se rebelar contra Jano e a Vila Amazônia é o caminho para isso, mas depois entende que a questão é mais complexa. Teme a arte como impostura, embora não viva sem ela, sem retratar em caricaturas angustiadas as pessoas que o cercam. Daí o auto-exílio, a partida para a Europa, onde percebe: "Arana bem que tentou inocular na minha cabeça o veneno de uma 'arte amazônica autêntica e pura', mas agora estou imunizado contra as suas preleções. Nada é puro, autêntico, original..." No entanto, procura uma voz própria e só encontra um fio, um fiapo, ignorante como é de sua própria origem. Sua acídia, num planeta que viu o muro de Berlim cair e a pobreza mundial prosseguir, é poderosa: "Por Deus, Lavo", escreve numa carta, "o mau gosto assaltou o universo, e a uniformidade vai matar a alma do ser humano". O que pode a arte contra essa realidade?

É Lavo que, de certa forma, faz o romance sobre a Vila Amazônia, beneficiado por não estar tão emocionalmente envolvido como Mundo, embora ao mesmo tempo sinta sua influência. Entre ele e Jano, Lavo oscila o livro inteiro, contando as verdades que vai descobrindo, num desfile de destinos danados, inclusive o da Vila Amazônia, a grande obra de nacional-desenvolvimentismo que termina vendida a um empresário de Taiwan, em vez de assumida por seu suposto herdeiro, Mundo. Antigos artistas contraculturais agora vivem de exportar madeira nobre e peixes ornamentais. Lavo procura fazer sua parte, advogando para "detentos miseráveis esquecidos nos cárceres", à medida que o país volta à democracia. Mas "o lento retorno ao estado de direito não acabara com muitos privilégios", resume. As vidas de Jano, Ranulfo, Mundo e Arana se esgotaram em agonia ou cinismo, e o Brasil que sobrevive a esse ciclo histórico pouco parece ter feito para aproximar os mundos, para democratizar riquezas e direitos. O idealismo foi calcinado.

Tal sintonia com a realidade presente não significa que a arte de Hatoum se justifique por ela; seu próprio romance é uma reflexão sobre a insuficiência da ficção diante da história. Por isso mesmo, seus personagens e sua história são tão marcantes e ficam em nossa memória por muito tempo depois que o lemos. Mas não deixa de ser um movimento importante esse de Dois irmãos até Cinzas do Norte: é como se o hiato entre os gêmeos, entre o farrista sedutor que se perde em Manaus e o calculista introvertido que faz sucesso apenas profissional em São Paulo, se mostrasse agora mais intransponível que nunca, sem nenhuma receita possível que possa iluminar a solução abrangente. Lavo faz o inventário de uma geração perdida, acuada, e a amargura ao final é eloqüente. Ao mesmo tempo, que alguém o possa fazer, sem se render à paralisia diante de tal complexidade, não deixa de ter valor afirmativo.
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