Toda prosa
  
01 de setembro de 2005
Dos Leitores
A carta a seguir, do tradutor Sergio Flaksman, foi endereçada a Paulo Roberto Pires, editor da Ediouro. Como o missivista deu publicidade ao texto, encaminhando-o, por e-mail, a editores, intelectuais e jornalistas, com cópia à revista, EntreLivros decidiu publicá-la. O que segue é a versão integral.
 
Venho por meio deste e-mail, de acordo com o que conversamos recentemente ao telefone e com cópia para amigos do ramo e outros companheiros de atividade, comunicar-lhe formalmente minha decisão unilateral de rescindir, em caráter irrevogável, o trato verbal que fiz com a Ediouro, por intermédio seu e da gentilíssima Juliana, para a tradução do Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, cujos originais já devolvi à editora pelo correio.

Esta decisão se deve ao artiguete intitulado Tradutores Traídos, publicado no número 1 da revista Entrelivros, que embora datado do mesmo mês de abril em que fechamos nosso acordo só chegou ao meu conhecimento três meses depois, por ocasião da festa literária de Paraty — onde exemplares gratuitos de atrasados da revista eram distribuídos aos passantes num mal-engravatado esforço de venda de assinaturas. Na deselegante nota, sob uma aparência de comentário ligeiro, o destemido embora anônimo articulista invoca o meu nome ao final de uma frase em que contrasta os autores de grandes traduções do passado com a inexpressividade de seus sucedâneos, supostos agentes da traição aludida em seu criativo título. O tom que emprega ao deplorar o processo, apesar de seu cuidado para não se comprometer e nem se estender em qualquer explicação, sugere claramente que meu trabalho é ruim, inaceitável ou, no mínimo, sinônimo reconhecido de tradução medíocre. (Para os destinatários de cópias desta que só podem desconhecer a matéria, aponto o link: http://revistaentrelivros.uol.com.br/edicoes/1/artigo7455-1.asp)

E pior: o tal autor sem nome não se contenta em me largar ali, logo antes de um ponto final, exposto ao desprezo de seus presumíveis leitores. Num rasgo de ostentada condescendência, com um imaginável piscar de olhos para a platéia, fulmina-me ainda com o inclemente tiro de misericórdia do desdém ao conceder sarcasticamente, "em tempo", para encerrar sua fundamentada diatribe, que as traduções de que fala "fluem", sem mais. Afirmação vaga que não sei muito bem o que significa, visto que, a meu ver, fluir não é propriamente uma qualidade, e sim uma condição: dizer que uma tradução flui esclarece tanto quanto dizer que uma roda é redonda. Se as minhas traduções, além de implicitamente traiçoeiras e medíocres, ainda por cima não fluíssem (se é que entendi bem o que isto possa querer dizer), editora alguma jamais haveria de contratar os meus serviços — e não me seria possível publicar minhas rodas quadradas nem mesmo em obscuras revistas de onde insistissem em emanar, com a mais previsível e borbulhante fluidez, parvoíces líquidas e certas.
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