Toda prosa
  
01 de novembro de 2005
Ler e crer fazem bem à saúde
Poesia e fé podem minimizar a dor ou até curar
por Oscar Pilagallo
Que a boa literatura faz bem ao espírito poucos duvidam. A novidade é que ela pode fazer bem também ao físico. Quem informa é Moacyr Scliar. Como médico e escritor, tem toda a autoridade para defender a tese, o que ele faz no livro O olhar médico - crônicas de medicina e saúde.

A propriedade terapêutica da leitura tem até nome: biblioterapia. Em alguns casos, chega a curar, em outros pelo menos mitiga o sofrimento das pessoas. Para quem duvida, ele apresenta uma entidade que existe nos Estados Unidos há mais de vinte anos, a Associação Nacional para a Terapia pela Poesia. O que faz o terapeuta? Simples: ele seleciona um poema ou um trecho de ficção, o lê para o paciente e discute sua resposta emocional. Ao contrário de tantos remédios, pelo menos não tem contra-indicação.

A fé também ajuda a curar, algo que a sabedoria popular já incorporou em seu repertório. Scliar cita dados: a expectativa de vida daqueles que vão à igreja uma vez por semana é, em média, de 82 anos; daqueles que não vão nunca à igreja é de 73 anos.

A fé, porém, nem sempre é benéfica. Às vezes, atrapalha o tratamento. Há pacientes, lembra Scliar, que deixam de se tratar para recorrer à religião. Rezar pelos outros também não ajuda. Pelo menos, é o que dizem as estatísticas. Uma pesquisa na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, dividiu pacientes com a mesma moléstia em dois grupos. Um deles era composto por pessoas pelas quais alguém orava. O outro não. O resultado da evolução da doença foi similar nos dois grupos.

Qualquer pessoa pode tentar ler um livro para pelo menos esquecer a doença por algum tempo. Já com a fé é diferente. Não é possível a um ateu ou agnóstico crer por conveniência. O auto-engano é prática comum, mas tem os seus limites.
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Oscar Pilagallo é jornalista e autor de A História do Brasil no século 20 (em cinco volumes), O Brasil em sobressalto e A aventura do dinheiro, todos pela Publifolha.