Toda prosa
  
01 de outubro de 2005
Liberdade para aprender
Como ensinar seu filho a fazer seus próprios julgamentos
por Oscar Pilagallo
Saber de cor não é saber. É uma frase que muita gente sabe - de cor. A sabedoria vem de longe, do século XVI. Aparece num pequeno ensaio de Montaigne (1533-1592) intitulado Da educação das crianças, agora disponível em português em edição popular. Sabemos então o que saber de cor não é. Mas é o quê? É muito menos. É apenas "conservar o que foi entregue à guarda da memória", diz o ensaísta francês.

O fato de a lição ser antiga, no entanto, não quer dizer que tenha sido assimilada. A pedagogia mais moderna tem nesse conceito um pilar, mas o ensino em geral no Brasil, onde as carências materiais dificultam até a reflexão sobre o ofício de ensinar, ainda não se livrou totalmente do nada instigante método da decoreba.

Montaigne tinha em mente o aprendizado de um nobre de sua época. Nobre, porém, não no sentido da nobiliarquia. Ele pensava no nobre de espírito, no homem virtuoso. É por isso que, quatro séculos depois, pode ser lido com proveito por pais e professores.

Para Montaigne, o objetivo central da educação deveria ser permitir à criança a formação de um julgamento individual. Para tanto, ela precisa liberdade. Em vez de aceitar o julgamento transmitido, deve julgar por si própria. "A relação com as opiniões dos grandes autores não se dará por crédito e autoridade, mas passará pelo crivo do aluno", anota Cláudia Vasconcellos na apresentação da obra. "Aceitar, por crédito, as opiniões de um autor, portanto, é hipotecar a própria liberdade e, assim, impossibilitar o exercício do julgamento." Memória cheia, juízo vazio.
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Oscar Pilagallo é jornalista e autor de A História do Brasil no século 20 (em cinco volumes), O Brasil em sobressalto e A aventura do dinheiro, todos pela Publifolha.