 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Toda prosa |
|
|
| 01 de maio de 2006 |
 |
|
|
« 1 2 3 4 5 6 » |
| Ligeira, sim; superficial, não |
| Pelo caráter absolutamente original da crônica brasileira, gênero merecia maior reconhecimento |
| por Luiz Ruffato |
 |
|
 |
| Machado de Assis, pioneiro na crônica |
 |
[continuação]
Historicamente, a crônica brasileira estabeleceu-se no momento em que os jornais adquiriram caráter de empresa industrial, em meados do século XIX, portanto em plena vigência do romantismo. Afrânio Coutinho afirma que a nossa descende diretamente do personal ou familiar essay inglês, inicialmente denominada "folhetim" - palavra que mais tarde iria designar um gênero específico de ficção, publicada em fragmentos periódicos. O hibridismo da crônica, que dialoga ao mesmo tempo com o jornalismo, com a prosa de ficção e com a poesia, é o que dá a nota original ao gênero - sua riqueza ou sua deficiência, dependendo de quem a maneja.
'Interessante é que a crônica não conhece exatamente uma evolução, pois os pressupostos do gênero já se encontram nos primeiros escritores que a ela se dedicaram, José de Alencar e Machado de Assis, a partir da década de 50 do século XIX. Eles perceberam de imediato a importância do espaço do jornal como forma de intervenção na sociedade, comentando desde pequenos incidentes cotidianos até os grandes fatos da nação, polêmico o primeiro, sarcástico o outro, nunca descurando ambos da língua. Alencar reuniu os seus escritos em livro, Ao correr da pena, ainda em vida, em 1874. Machado, com sua autocrítica impiedosa, embora tenha escrito perto de 700 textos, reuniu apenas seis no volume Páginas recolhidas, de 1899, além de um "debuxo" autobiográfico, a obra-prima "O velho Senado". Posteriormente, seus trabalhos foram agrupados em diversos volumes.
Olavo Bilac, mais conhecido como poeta, foi, entretanto, também um badalado cronista no começo do século XX, escolhido para substituir Machado de Assis no prestigioso jornal Gazeta de Notícias. Mas quem forneceu contribuição original ao gênero por essa época foi João do Rio, autor que aos poucos vem sendo resgatado desse cipoal que se convencionou chamar "prémodernismo" (como no excelente João do Rio, de Renato Cordeiro Gomes). É dele a síntese que melhor caracteriza o gênero - "espelho capaz de guardar imagens para o historiador futuro" - curiosamente seguido à risca por seu desafeto, Lima Barreto (cujas crônicas foram em sua totalidade recentemente reunidas por Beatriz Resende e Rachel Valença). Com o advento do modernismo surge uma geração de ouro na crônica, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rubem Braga, Joel Silveira, Raquel de Queiroz, Eneida, Carlos Drummond de Andrade, sucedida por outra não menos importante, José Carlos de Oliveira, Antônio Maria, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos.
Se não se deve falar em evolução, no sentido qualitativo e cumulativo, como exposto acima, a crônica, entretanto, desinibiu-se, ao longo do tempo, assumindo cada vez mais sua aspiração à permanência. Sendo ainda hoje possível ler com prazer as crônicas de José de Alencar, as de Machado de Assis oferecem, além disso, como toda sua obra, uma verdadeira reflexão a respeito dos costumes e hábitos da sociedade brasileira, atravessando praticamente todo o Segundo Império até a proclamação e instalação da República - reavendo assim seu caráter original de "relato dos acontecimentos em ordem cronológica". O mesmo ocorre com João do Rio e Lima Barreto, tão díspares e tão complementares, em relação à compreensão do Brasil durante a República Velha. |
|
« 1 2 3 4 5 6 » |
|
|
|
|
|
|