Toda prosa
  
01 de maio de 2006
Madame Bovary e o melro
 
Ninguém duvide das possibilidades que o estudo biológico pode trazer para a compreensão dos textos literários. Lemos a Ilíada à luz dos elefantes-marinhos, Shakespeare com ajuda dos gorilas, e compreendemos Emma Bovary, tão ciosa por uma prole forte quanto um melro:

"Os biólogos compreendem que uma das principais razões para Emma querer fazer sexo com Rodolphe, Léon e com o marquês (este último uma ligação não consumada) é porque no mais íntimo do seu ser (no DNA do seu cérebro) ela ouviu um sussurro subliminar darwiniano que provocou comichão nos seus ovários, ainda que ela não admita isso e que provavelmente teria, numa atitude consciente, tentado agir contra esse resultado. Mulheres inteligentes às vezes fazem mesmo as escolhas erradas, e uma breve consulta a Darwin nos ajuda a vislumbrar os motivos disso. É evidente que madame Bovary considerava seus vários amantes sexualmente excitantes, da mesma forma que uma pessoa faminta - ainda que sem nada saber sobre a fisiologia da digestão - pode ser seduzida por uma refeição apetitosa. A maioria das pessoas não come para alimentar seu metabolismo, mas para mitigar sua fome. Ao encarar esses impulsos como o que realmente são, o leitor moderno pode ver como a perspectiva de melhorar sua situação evolutiva é a base que sustenta a fome erótica herdada pela heroína."

Os ovários de Mme. Bovary, de David P. Barash e Nanelle R. Barash, pág. 110