Toda prosa
  
01 de janeiro de 2006
Narrador se agiganta e engole a ficção
Em novo romance de José Saramago, a intriga e os personagens parecem existir apenas para justificar a exacerbada participação do autor
por Adriano Schwartz
Adaptação teatral de O evangelho segundo Jesus Cristo, obra mais polêmica de Saramago, em São Paulo, 2001
O título As intermitências da morte é apropriado, pois o enredo tem a ver com essa idéia de algo que pára e recomeça, de algo intermitente. Mas o aguardado novo romance do português José Saramago também poderia se chamar "as experiências da morte", afinal, acima de tudo, é disso que trata. Primeiro ela decide deixar de "funcionar". Em um país cujo nome não se sabe, ninguém mais morre a partir do primeiro dia do ano. Por algum tempo, são as consequências dessa inexplicável "greve" que o leitor acompanha. Aí, uma carta avisa que quem deveria ter morrido no período e, em princípio, escapara, morreria finalmente e que, a partir daquele momento, as pessoas passariam a ser avisadas com alguns dias de antecedência sobre os seus "falecimentos" para poderem se preparar adequadamente. Por fim, um desses desfechos anunciados não se realiza, deixando a entidade responsável por ele bastante intrigada. Então temos o surgimento, por falta de palavra melhor, de uma "relação" entre esta morte personificada e um certo violoncelista que consegue, sem que ela saiba por quê, escapar de seu destino.

Este é um resumo possível da obra mais desigual escrita por Saramago. Se em vez de um romance ele tivesse concebido um conto, ou uma pequena novela, apenas com a parte final do texto, teria produzido uma peça notável. Não adianta, contudo, pensar em tais hipóteses com o livro lançado. Ele agora existe como é e, assim sendo, cria um acontecimento inusitado. Comenta-se muito, entre os críticos do escritor português, o fato de que, com algumas exceções, as suas narrativas não terminam tão bem quanto poderiam.

O caso mais emblemático é o do Ensaio sobre a cegueira, obra-prima que tem seu brilho ofuscado por um final redentor absolutamente desnecessário.

Em As intermitências da morte, entretanto, ocorre o contrário. Durante páginas e páginas, o leitor fica se perguntando para onde está sendo conduzido e acompanha personagens que surgem e desaparecem sem grandes razões, subtramas bobas e trechos de assustadora redundância. Um exemplo talvez demonstre não haver exagero aqui: "Por aí se sai novamente ao corredor, mesmo em frente de uma porta em que a morte não necessitou tocar para saber que se encontra fora de serviço, isto é, nem abre nem fecha, modo de dizer contrário à simples demonstração, pois uma porta da qual se diz que não abre nem fecha é unicamente uma porta fechada que não se pode abrir, ou, como também costuma dizer-se, uma porta que foi condenada (...)". A conclusão do livro, contudo, se não redime o conjunto, mostra- se à altura do único escritor de língua portuguesa a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura.
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