Beto, um estudante de seus 14 anos, me mandou uma mensagem por correio eletrônico: queria muito conversar comigo e, por sugestão do pai, médico, tinha procurado e achado meu endereço na Internet. O assunto era um livro de contos de minha autoria, objeto de estudo em seu colégio.
Havia no entanto um problema - que o tal Beto foi logo confessando no segundo e cruel parágrafo. Como ele não gostasse muito de ler ("Pô, é muito chato e nem tenho tempo") e como a prova sobre o dito livro se aproximava ("Na terça-feira, e ainda tenho que treinar para um campeonato de games"), ele pedia ajuda ("Meu pai me mata se eu rodar"). Ele, o coitado, precisava de um resumozinho dos contos ("Não precisa ser muito grande").
Despachei o Beto com uma bronca, extensiva ao pai dele. E com um tema de casa: que os dois sem-vergonhas entendessem que me pediam para lhes dar a única coisa que eu tinha para vender.
O Beto crê que eu não vivo de meus livros. Aliás, o Beto não crê em nada e não entende que o trabalho de escrever é, sim, um trabalho. O Beto acha que só seu pai trabalha - e que só eles dois são muito ocupados. O Beto, em sua precoce sabedoria, e seu pai, que devia ter o pátrio poder cassado, nos revelam: o ofício de escritor tem um conceito rasteiro e pedestre e, por causa ou apesar disso, precisa ser reconhecido, legitimado e revalidado. |