Toda prosa
  
01 de agosto de 2006
Realidades inventadas
 
Já faz quase dois anos que o célebre pseudo-repórter Jayson Blair, o mais eloqüente e explícito inventor de reportagens do New York Times, resolveu tornar-se autor de livros e lançou seu Burning down my masters’ house. Menos de uma década antes, o suposto jornalista Stephen Glass já mentira descaradamente em revistas norte-americanas, lançando em seguida seu livro The fabulist, esse mais honesto: uma ficção baseada em sua própria trajetória.

Agora, no entanto, um outro sujeito parece percorrer o caminho inverso. O escritor espanhol Enrique Vila-Matas, autor do bem-sucedido Bartleby e companhia, revelou já ter usado seu talento ficcional inventando entrevistas. A afirmação foi feita em sua coluna da revista Magazine Littéraire de junho, em que confessa que, no princípio de carreira, quando atuava como jornalista, forjou um sem-número de entrevistas com figurões da cultura mundial.

A aventura começou quando foi designado para traduzir do inglês uma entrevista com Marlon Brando. Incapaz de compreender sequer uma palavra, viu-se obrigado a inventá-la e, para sua surpresa, ninguém percebeu. Seguiu-se à empreitada a invenção de depoimentos de Patrícia Highsmith e Cornelius Castoriadis, entre outros, até alcançar o ápice de sua vida de falsário: apressado, inventou uma entrevista com Anthony Burgess logo antes de encontrá-lo e, no encontro, viu-se tentado a contar o feito. Burgess não se ofendeu. Em vez disso, fez a sua confissão: também ele, quando jornalista iniciante, inventara suas próprias entrevistas.