Toda prosa
  
01 de novembro de 2005
Reflexões sobre o livro (em frases de azulejo)
 
A pergunta que não quer calar é: o livro em seu formato atual vai sobreviver às novas tecnologias? Depoimento do publicitário Eugênio Mohallem: "Entre livro e internet, prefiro o livro. Pelo menos ele só cai quando eu durmo". Millôr Fernandes assinaria embaixo. "Livro não enguiça", declarou certa vez. José Saramago se junta ao coro: "É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido".

A julgar pela amostragem das opiniões, pode-se concluir que o livro vai sobreviver. A bem da verdade, porém, é preciso esclarecer que a sondagem tem um vício de origem. As aspas foram colhidas no livro O livro entre aspas, uma seleção de Carlos Carrenho e Rodrigo Magno Diogo. Tratase, claro, de um livro a favor do livro.

E a favor do autor também. O escritor irlandês John Ruskin não tem meias palavras ao advogar em causa própria: "Se vale a pena ler um livro, vale a pena comprálo". Emprestar não é bom negócio. "Nunca empreste livros, pois ninguém os devolve", advertia Anatole France. E tinha autoridade para dar o conselho: "Os únicos livros que tenho em minha biblioteca são aqueles que outras pessoas me emprestaram". Comprar livros é importante. Para o autor. Não que ele escreva por dinheiro, mas precisa se sustentar. Afinal, como dizia Goethe, "escrever é um ócio muito trabalhoso".

É verdade que uns tem menos trabalho que outros. Para Pablo Neruda, escrever não tinha mistério. Sem temer a concorrência, ele até entregou a receita: "Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias".

Basta tomar cuidado para não errar a mão. Acontece sempre. "Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro", analisava Mário Quintana. E tomar cuidado também para não ser pretensioso. "Livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas", dizia Quintana. E concluía: "Os livros só mudam as pessoas". Seria esse o papel do escritor? É outra pergunta que não cala. O escritor Evandro Affonso Ferreira discorda: "O papel do escritor é o A4".