Toda prosa
01 de março de 2006
volta do romance a prestação
 
O romance-folhetim surgiu no século XIX, no rodapé das páginas de jornal, com um pontilhado indicando a linha para ser recortada. Obras de autores como Balzac, Flaubert e Victor Hugo foram assim apresentadas para seus leitores: em capítulos. Criado na França, o formato foi uma forma de facilitar o acesso ao livro. Na década de 1830, o modelo foi importado pelo Brasil, primeiro traduzindo os franceses, depois publicando autores como Teixeira e Sousa, Joaquim Manuel de Macedo, depois José de Alencar e Machado de Assis, chegando a Nelson Rodrigues e Orígenes Lessa.

Mas essa prosa em capítulos, extremamente popular em fins do século XIX, foi gradualmente sendo esquecida. No livro Os romances em folhetins no Brasil (1830 à atualidade), José Ramos Tinhorão faz o primeiro levantamento dos folhetins publicados de 1830 a 1994. Numericamente, pode-se ter uma idéia desse decréscimo: de 1839 a 1900, foram lançados 198 folhetins. De 1950 a 1994, apenas 36.

O jornal literário curitibano Rascunho resolveu recuperar o romance-folhetim. Desde julho, vem publicando, mês a mês, capítulos de O inglês do cemitério dos ingleses, do escritor Fernando Monteiro. Segundo o autor, O inglês "é o fantasma do folhetim literário, voltando para puxar o pé dos leitores ainda interessados na alma". Monteiro já publicou outros livros, e é a primeira vez que escreve por parcelas. "É mais ou menos imprevisível o que pode acontecer com o tecido elástico de um romance-folhetim", diz. No final, pretende fazer como Flaubert com Madame Bovary, ou Machado de Assis com Quincas Borba, e lançar o romance na íntegra, em livro.