Reportagem
edição 23 - Março 2007
A barba e o véu
Sociólogo tunisiano reflete sobre a sexualidade islâmica e mostra como há distorções nas visões de ocidentais e dos próprios muçulmanos.
por Eliane Robert Moraes
A sexualidade no Islã de Abdelwahab Bouhdiba, Ed.Globo, 384 págs, R$ 36
Pode surpreender que, sendo o livro árabe por excelência, o Alcorão não faça qualquer alusão a camelos. Contudo, essa curiosa observação do historiador inglês Edward Gibbon levou Jorge Luís Borges a concluir que a ausência de camelos é prova da autenticidade do texto escrito por Maomé. Segundo o autor argentino, justamente por ser árabe, o Profeta "não tinha motivos para saber que os camelos eram especialmente árabes; sendo parte da sua realidade, ele não tinha por que distingui-los".

Em compensação, completa o escritor nessa notável crítica ao senso comum, a primeira coisa que um falsário, um turista ou um nacionalista teriam feito seria povoar cada página do Alcorão de caravanas de camelos.

Ora, basta substituir os tais camelos por odaliscas para sermos contemplados com imagens ditas "típicas" da sexualidade no Islã. Imagens que incitam as fantasias do Ocidente cristão há muitos séculos, no mais das vezes contribuindo para aprisionar a alteridade árabe em lamentáveis clichês. Essas visões distorcidas, cuja origem coincide com os interesses colonialistas, também cumprem o papel perverso de transformar o Oriente islâmico em espaço projetivo dos recalques do homem ocidental.

Disfarçado em outro, o reprimido retorna com redobrado vigor, alimentando fantasmas e preconceitos, como nossa atualidade dá provas de sobra.
Mas as distorções em torno da sexuaČlidade no Islã, sobretudo nas últimas décadas, não se esgotam nas representações que dela fazem os ocidentais. Em que pesem as manipulações midiáticas, não se pode ignorar a hostilidade que uma expressiva parcela da população islâmica vem demonstrando em relação ao sexo. São recorrentes os registros da intolerância de muçulmanos que, atiçados por fundamentalistas, castigam suas mulheres em espetáculos públicos de horror. Quanto aos homossexuais, os costumes mostram-se ainda mais severos: considerado a torpeza das torpezas, o homoerotismo chega a ser punido com a pena de morte.

Nada simples, portanto, o desafio enfrentado pelo sociólogo tunisiano Abdelwahab Bouhdiba em A sexualidade no Islã, que se propõe a investigar as práticas e representações eróticas do mundo muçulmano. Nada simples, vale repetir, inclusive porque sua opção em oferecer uma "visão de dentro", alheia aos habiČtuais clichês, não o leva a fazer vista grossa diante das barbaridades que vêm sendo denunciadas pelo bloco ocidental.

Por isso mesmo, deve-se saudar o lançamento deste livro no Brasil, que chega em boa hora, apesar de passados mais de 30 anos de sua publicação original na França, em 1975. Com tradução de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco e revisão de Mamede Mustafa Jarouche, tradutor da recente edição brasileira das Mil e uma noites, o estudo de Bouhdiba já é considerado um clássico. Trata-se de uma notável suma da erótica islâmica, que examina desde suas concepções tradicionais até seu complexo contato com os imperativos das sociedades modernas, mas sem ceder às interpretações comprometidas, seja com as tirânicas ocupações, seja com o sectarismo fundamentalista.

Tendo o Alcorão como ponto de partida, o autor interroga o impacto das escrituras no imaginário erótico muçulmano, vasculhando o amplo tecido social que compõe o mundo árabe-islâmico. Seu principal argumento gira em torno do lugar central que o erotismo ocupa no Islã, desmentindo a imagem de uma religião assentada na repressão da sexualidade. Bouhdiba observa que, ao contrário do cristianismo, o islamismo não elege o prazer carnal como origem do pecado, uma vez que afirma o gozo do corpo como uma espécie de fonte e de prova da existência do poder divino de Alá.
Dessa afinidade entre o sexual e o sagrado decorre a concepção de que o exercício erótico é uma forma de prece. Por isso, segundo a bela interpretação do autor, o Islã não só aceita e recomenda as alegrias do sexo, como também incentiva as técnicas de sua constante renovação: "O tempo do amor é um magnífico arabesco no qual o fracasso próximo é sempre evitado e a realização, uma vez alcançada, faz-se um ponto de partida para outro recomeço. Apenas a prece da alvorada pode pôr termo à sábia utilização da noite".

Entende-se por que os procedimentos amorosos são alvo de intensa ritualização nessas tradições, caracterizadas por requintes pouco cultivados entre nós. Cumpre dizer, nesse sentido, que as descrições desses procedimentos compõem algumas das passagens mais encantadoras do livro, oferecendo ao leitor uma possibilidade de entrar em contato com a rica, delicada e sofisticada simbologia que envolve a matéria sexual na sensibilidade muçulmana.

Exemplo de tal refinamento pode ser encontrado nas formas simbólicas de diferenciação dos sexos, tópico essencial da vida islâmica. Os muçulmanos não medem esforços para dar evidência à dicotomia entre o masculino e o feminino, o que resulta em rígida regulamentação da vestimenta e dos cuidados corporais. Daí a interessante oposição entre a barba e o véu - principais símbolos da virilidade e da feminilidade -, que transfere para os rostos as marcas sexuais distintivas de homens e mulheres.

A barba se destina fundamentalmente a exibir a masculinidade. Motivo de orgulho e objeto de redobrada atenção, o modelo canônico prescreve que ela deve ser longa, mas aparada, escovada, alisada e também perfumada. Conta Bouhdiba que o próprio Profeta costumava pentear sua barba 40 vezes por cima e outras 40 por baixo, sustentando que essa prática servia para aumentar a vivacidade da inteligência e para suprimir as secreções do corpo. Inspirados nas recomendações de Maomé, vários textos sagrados associam o comprimento da barba à amplitude da razão, estabelecendo uma correspondência estreita entre ela e a autoridade, a sabedoria e o poder.
Tema obrigatório dos tradicionais tratados de fisionomia árabe, a barba indica igualmente a posição social de seu portador. Trata-se de um reconhecimento imediato, dado pelo tamanho, forma e cor, como confirma a curiosa passagem de um livro citado pelo autor: "Um burguês apresenta uma bela barba semilonga tingida de azul, ou de verde, ou de vermelho. Reconhece-se um trabalhador ou um escravo por uma pequena barba bastante curta. Os notáveis e as pessoas que exercem profissões liberais, médicos, qádís, professores, imãs, têm a mandíbula ornada de uma longa barba branca como neve, enquanto a dos militares se divide em dois tufos do mais belo negro".

Tudo isso concorre para que a quantidade de pêlos na face torne-se objeto de orgulho dos adolescentes, que os aguardam ansiosamente, assim como dos homens maduros, que se valem dela como veículo de sedução ou signo de prestígio. Em suma, como conclui o autor, há um inegável fetichismo do pêlo no Islã, cuja significação é simultaneamente sexual e religiosa. Num sentido mais amplo, a barba participa do imperioso fetichismo da vestimenta, instrumento do pudor que deve dissimular o corpo e, ao mesmo tempo, refletir a dicotomia sexual do universo.

Sua contrapartida, oposta e complementar, é o véu, cujo valor também ultrapassa o simples nível utilitário para desdobrar-se em uma verdadeira teologia da manutenção da pureza feminina. Símbolo renovado do Islã, o véu encontra-se no centro de uma poderosa mitologia que tem sua origem nas recomendações do Alcorão, voltadas para os crentes em geral e as mulheres em particular. Lê-se no livro sagrado, reproduzido por Bouhdiba: "Diga aos crentes que eles baixem seus olhares e que sejam castos. Será mais decente para eles. Alá está bem informado do que eles fazem. Diga às crentes para baixarem seus olhares, para serem castas, para não mostrarem de seus atributos senão o que aparece. Que elas rebatam seus véus sob suas gargantas!".

Diferentemente da barba, que convoca o olho, o véu subtrai da vista as formas femininas, reiterando as advertências religiosas nas quais a visão aparece quase sempre como sinônimo de pecado. Descobrem-se aí traços da inexorável lei da separação dos sexos que impele a socialização muçulmana a um aprendizado preciso e minucioso sobre como olhar e como ser olhado. Não estranha que, para compensar as severas exigências dessa sociedade que codifica a visão nos menores detalhes, "a poesia árabe seja um hino aos olhos e uma sinfonia do olhar", como recorda o autor.
O contraste entre a barba e o véu, aqui resumido de forma breve, é apenas um entre os diversos tópicos que Bouhdiba explora com particular encanto e rigor. Ainda que todos eles despertem o interesse do leitor, essa única oposição basta para dar evidência à rígida hierarquia entre os sexos nessas sociedades. A revelação de sua densidade simbólica requer a superação dos lugares-comuns ocidentais, ao mesmo tempo em que atenta para a complexidade que envolve a questão nos dias de hoje. Por isso mesmo, o grande mérito do livro está em expor o dilema do Islã dentro de um mundo globalizado, sem deslizar em fórmulas fáceis.

Esse dilema, segundo o sociólogo, tem travado a renovação da teologia islâmica. Provas disso também são abundantes na atualidade, tal como a inexistência de um estatuto da mulher muçulmana, que acabou por transformá-la num objeto de fruição, reduzindo-a a mera condição de reprodutora. "Por um lado, a insistência constante em cantar a sexualidade, por outro, o dimorfismo sexual" que esvazia a feminilidade de seu valor, reprimindo o potencial erótico dessa parcela da população condenada ao silêncio. Como então evocar o Eros paradisíaco da visão alcorânica, se as mulheres que se rebelam contra o modelo hegemônico são cruelmente apedrejadas e mortas nas ruas?

Acredita o autor que o despreparo para dialogar com as sociedades modernas, somado à preocupação em defender uma doutrina visada por todos os lados, levou o muçulmano a privilegiar "as formas exteriores da atividade sexual em vez de se ligar à alma que deve animá-la". Se o fundamentalismo, atiçado pela violência das sucessivas ocupações, acelerou o processo de destruição dos valores originais do islamismo, a obsessão atual pela pureza vem trazendo conseqüências perversas aos fiéis. Enfim, na impossibilidade de adequar qualquer prática erótica aos inatingíveis ideais religiosos, assiste-se hoje à patética substituição de um erotismo alegre por uma sexualidade vivida com culpa.

A refinada arte erótica do Oriente parece estar ameaçada. O amor islâmico corre o risco de tornar-se pura mistificação. De fato, para Bouhdiba o grande perigo que ronda as sociedades muçulmanas é a "cretinização pelo sexo". Se esse desolador diagnóstico estiver certo, é bem provável que em breve os textos árabes venham a ser colonizados por caravanas de camelos e legiões de odaliscas.
© Duetto Editorial. Todos os direitos reservados.