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Reportagem |
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| edição 14 - Junho 2006 |
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| A conexão brasileira de Saint-Exupéry |
| Ao fazer a rota entre Europa e Argentina, o piloto e autor de O Pequeno Príncipe, best-seller que completa 60 anos, costumava pousar em Florianópolis, onde ficaria conhecido como Zé Perri |
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[continuação]
No ano 1929, o piloto-escritor começara a fazer escalas e estadas na ilha. Seu Deca o recebia para comer pirão e outros pratos locais, caçar marrecos e manter, como podiam, uma conversa. O resgate desse laço de Saint-Exupéry com Santa Catarina ficou por conta de Getúlio, que escreveu em 2003 um pequeno livro sobre essa história, Deca e Zé Perri, edição bilíngüe (francês-português). Por toda a infância e juventude, Getúlio ouviu os relatos do pai sobre Saint-Exupéry e o livro é fruto dessas histórias. Além dessa amizade, pesquisas realizadas na Universidade Federal de Santa Catarina averiguaram contatos do piloto com pessoas da elite local.
O livro de Getúlio foi lido pela sobrinha-neta e herdeira do escritor, Isabelle d'Agay. “Continuo surpresa com a lembrança que a passagem de meu tio-avô deixou na América do Sul e no Brasil em particular, mesmo depois de mais de 50 anos de seu desaparecimento”, diz a herdeira. “Fico muito orgulhosa e, assim como a família, grata a todos os brasileiros de Florianópolis por sua fidelidade à memória de Antoine de Saint-Exupéry, especialmente a Getúlio Inácio por seu testemunho.” Um filme foi realizado, Zé Perri no Campeche, sob direção do cineasta brasileiro Zeca Pires e seus alunos da Unisul (2000). Trata-se de um documentário sobre a presença do escritor francês na região, que foi premiado no Festival de Gramado como melhor documentário. Saint-Ex, como era chamado, casou-se com Consuelo, salvadorenha que conheceu em Buenos Aires, na época da Aeroposta Argentina.
Sofreu acidentes aéreos – acabaria a vida num avião –, um mais grave em 1938 (Guatemala). A imobilização o levou a escrever suas memórias de piloto e, em 1939, publicou Terra dos homens, vencendo o Grande Prêmio da Academia Francesa e ainda o National Book Award nos Estados Unidos. No Brasil, o livro foi traduzido por Rubem Braga. Saint-Exupéry perdeu amigos em vôos, amargou sérios problemas conjugais, desesperou-se pela humilhação de seu país durante a Segunda Guerra. Toda essa tristeza teria sido vivida, nos últimos anos, em Nova York, onde se exilara e criou o The Little Prince, ilustrando-o e vendo-o publicado em 1943. Com uma tiragem de 525 exemplares em inglês e 260 em francês, esses volumes hoje são negociados em torno de 12 mil euros (cerca de R$ 32 mil) cada um.
E o conto fantástico de Saint-Exupéry levaria três anos para atravessar o Atlântico, saindo em sua terra natal apenas postumamente em abril de 1946. O Pequeno Príncipe se tornou figura exemplar, a ser, antes de lida a obra, citada como se suas assertivas fossem verdadeiras lições de comportamento. Não havia, na década de 1940, quando foi escrito o livro, uma quantidade incalculável de livros de auto-ajuda e a religiosidade estava em crise. Lacunas suficientes para apropriações questionáveis. Assim, O Pequeno Príncipe, romance inicialmente concebido como um álbum ilustrado para o público infantil, tornou-se uma referência em todas as faixas etárias e inúmeras sociedades. |
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