Reportagem
edição 31 - Novembro 2007
A ficção do sul profundo
Conheça 11 escritores gaúchos, pouco conhecidos além dos limites regionais, que merecem atravessar a divisa do Mampituba
por Marcelo Backes
© LEONID STRELIAEV/ EDITORA LETRAS BRASILEIRAS/DIVULGAÇÃO
Gaúchos tomam chimarrão; às margens do mercado nacional, há vários autores de qualidade
O Rio Grande do Sul tem os maiores índices de leitura per capita no Brasil, um Instituto Estadual do Livro atuante desde os anos 80 – que publicou autores novos, desconhecidos e bons –, mais a Jornada Literária de Passo Fundo e a Feira do Livro de Porto Alegre. Tradicionalmente, teve um dos melhores ensinos públicos do país, coisa que por certo tem papel importante no fato de apresentar tantos escritores e ter tantos deles nas finais dos prêmios literários.

Nas universidades, há disciplinas de literatura do Rio Grande do Sul, e mesmo fora delas sempre se gabou de sua auto-suficiência e nunca fez questão – ou fingiu não fazer – de atravessar suas fronteiras geográficas. Por outro lado, nunca se preocupou com vanguardas e poucas vezes assumiu a proa no barco da literatura nacional, caracterizando-se pelo conservadorismo na linguagem e pela abordagem social ou histórica, de quando em vez psicológica, mas sempre marcada pelo modelão realista-causal; não contadas exceções honrosas como a loucura genial e nonsense de Qorpo Santo, o regionalismo avançado de Simões Lopes Neto e a ficção dostoievskianamente universal de Dyonélio Machado. E sempre fomos gaúchos acima de tudo: durante o último Pan-Americano tivemos uma lista para as medalhas gaúchas, programas especiais a respeito, e hoje cantamos aos quatro ventos os feitos de Tiago Camilo e João Derly no judô. “Sirvam nossas façanhas de modelo a... toda a terra”, diz o hino. Façanhas! Modelo! A toda a terra!

O assunto, porém, é a literatura. E inclusive ali estamos começando a nos mostrar solidários. Se a lenda dizia que um cesto de caranguejos baianos tinha de ser trancado rigorosamente porque uns ajudavam os outros a subir, deixando-o vazio em poucos segundos, enquanto o cesto artístico de caranguejos gaúchos podia ser deixado aberto, porque assim que um subia o outro se encarregava de puxá-lo pra baixo, agora não é mais assim. Estamos começando a nos unir! Outro dia, Mario Quintana venceu Drummond e João Cabral numa votação da EntreLivros em que os leitores escolhiam seu poeta preferido. Ora, Quintana! Será que o Rio Grande está mesmo solidário, ou o Brasil está se curvando definitivamente ao que temos (de nem tão bom assim)?
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Marcelo Backes é escritor, tradutor, professor e crítico literário. Doutor em germanística e romanística pela Universidade de Freiburg. Autor de maisquememória, entre outros livros.