Reportagem
Dante - Poemas autobiográficos
A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor
por Eduardo Sterzi
BIBLIOTECA BRITÂNICA/LONDRES
Página do Paraíso, da Divina Comédia, em edição de 1440, com iluminuras da Escola italiana
Difícil separar em Dante o mito pessoal, de um lado, e, de outro, a vida situada aquém da imaginação e da poesia. Afinal, toda sua obra se construiu em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente, mesmo nos momentos de mais fantástica idealização, um eu poético que se apresentava como coincidente com o eu empírico do autor. Ainda que, em menor ou maior grau, transfiguradas, foram as experiências efetivamente vividas por Dante que ele tomou como pontos de partida para seus textos, sejam estes líricos ou narrativos, ou mesmo tratadísticos. E sobre a realidade dessas experiências, especialmente em suas extremas transfigurações na Comédia, Dante sempre insistiu.

Como disse Charles S. Singleton, a ficção da Comédia é de que ela não seja ficção – e o mesmo, podemos acrescentar, talvez valha para as demais obras de Dante, sobretudo para a Vida nova, em cuja introdução ele declara que apenas transcreverá o que está registrado no livro da sua memória. Há, ao longo de toda sua obra, uma postulação de verdade – teologicamente fundada, mas realizada sobretudo como humana adequação do texto à “vida” (palavra central em Dante, desde o título do primeiro livro) – em permanente tensão com a consciência de estar escrevendo ficção (fictio).
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Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.