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Reportagem |
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| Dante - Poemas autobiográficos |
| A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor |
| por Eduardo Sterzi |
[continuação]
Como bem disse Domenico de Robertis, “a cultura do tempo da Vida nova é antes de tudo aquela que a Vida nova define e representa” – e tal axioma vale não só para a Vida nova, que foi o primeiro livro de Dante, e também o primeiro livro da literatura italiana, como para todos os seus outros textos, cada um deles, mesmo quando inacabados (ou por isso mesmo), exemplares de um determinado aspecto daquela cultura em “crise de crescimento” (a expressão é do historiador Jacques Le Goff ). Ainda De Robertis, em formulação exata: “A hipótese, retórica e didática, de um Dante sem a Comédia, ou de uma literatura ou de uma língua italiana sem Dante, é hipótese, simplesmente, de uma outra literatura e de uma outra língua”.
Aí se desenha, na lucidez do crítico, outra característica fundamental da arte de Dante, que podemos chamar de sua futuridade intrínseca, mas que, na verdade, seria mais precisamente definida como sua intempestividade radical, ou como seu anacronismo constitutivo e, sobretudo, operativo. Para se entender a singularidade da posição dantesca é preciso traçar uma linha de diferenciação em relação a uma atitude mais generalizada frente aos “clássicos”.
Diversas obras, não só literárias, são vistas pela posteridade como fundadoras de uma determinada tradição ou como decisivas em algum momento da configuração de um cânone. No caso da obra de Dante, ocorre algo como uma inversão de perspectiva. É o próprio Dante que, antes de qualquer outro, vê a si mesmo como o autor originário do que seria a literatura italiana – e originário em sentido profundo: não necessariamente o primeiro em cronologia, ainda que em alguns aspectos o seja, mas aquele que lhe imprime o ponto de inflexão determinante, aquele que põe em questão o que já foi feito pelos predecessores e, a partir dessa reavaliação, lança as bases da literatura futura, ou pelo menos de uma de suas linhas de continuidade (trata-se aqui de uma “origem incompleta”, de uma “origem crítica”, para falarmos como Corrado Bologna, em Tradizioni e fortuna dei classici italiani).
Aposta no futuro ■ Há uma passagem na Comédia em que a autoconfiança de Dante quanto a esta função originária da própria obra é declarada sem constrangimento algum: refi ro-me ao canto XI do Purgatório, em que Dante narra seu encontro com o iluminador Oderisi da Gubbio. Ouvimos, com Dante, Oderisi lastimar a fugacidade da glória, que logo faz a fama de um artista declinar enquanto a de outro ascende; Oderisi compara, então, a superação de Cimabue por Giotto, na pintura, à de Guido Guinizzelli por Guido Cavalcanti, na poesia, assinalando por fim a possibilidade de que talvez já tenha surgido quem sobrepasse os dois Guidos – e quem seria tal campeão senão o próprio Dante? “Acreditou Cimabue, na pintura,/ manter sua posição, e agora Giotto se sobressai,/ de modo que a fama daquele se tornou obscura.// Assim tirou um ao outro Guido/ a glória da língua; e talvez tenha nascido/ quem a um e outro expulsará do ninho” (Purg. XI 94-99). |
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| Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão. |
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