Reportagem
  
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Dante - Poemas autobiográficos
A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor
por Eduardo Sterzi
[continuação]

Vale notar que uma aposta assim imodesta no porvir não é novidade no percurso de Dante; pelo contrário, muitas vezes a aposta no futuro funciona como uma espécie de ponto de transição interno à própria obra, prenunciando e preparando seus desenvolvimentos vindouros. Era o que já se dava no final em aberto da Vida nova, em que Dante dizia que, depois de ter composto o último soneto do livro, aparecera-lhe uma “maravilhosa visão”, na qual vira “coisas que [lhe] fizeram propor não dizer mais” de sua amada Beatriz “até que pudesse mais dignamente tratar dela”.

Sua intenção, que ele afi rmava buscar cumprir por meio do “estudo” (“E di venire a•cciò io studio quanto posso”: “Para consegui-lo, estudo quanto posso”, na tradução de Carlos Eduardo Soveral), era “dizer dela aquilo que nunca foi dito de nenhuma”. Esse dizer inédito – esse poetar sobre humano – estaria associado, ainda conforme registra Dante, à possibilidade de sua alma “ver a glória da sua dama, isto é, daquela bendita Beatriz” que se encontra na companhia de Deus (“la quale gloriosamente mira nella faccia di Colui ‘qui est per omnia secula benedictus’”).

Não será errôneo supor que era a Comédia – com tudo que ela representaria como conquista de uma nova dignidade estilística e formal na expressão vernacular, e isto tanto na sua trajetória pessoal quanto na trajetória mais ampla das letras italianas – que Dante prefigurava neste último parágrafo da Vida nova. Mas é claro que essa prefiguração era ainda um tanto indefinida, pouco mais do que uma pura pulsão poética futurante, ou espécie de utopia textual, a descer, só depois, sobre o mundo.

Sombras do passado ■ A contraparte desse freqüente vínculo intempestivo da poesia de Dante com o futuro é seu vínculo não menos forte com o passado. Aliás, se Dante, pela boca de seu personagem Oderisi, insinua seu próprio nome como o daquele que já estava, no momento da redação da Comédia, superando Guido Guinizzelli e Guido Cavalcanti, é porque, em cantos anteriores da obra, já reclamara uma auctoritas inapelável. De forma difusa, mas não por isso menos eficaz, essa reivindicação de autoridade e autoria atravessa a obra; mas é no canto IV do Inferno que toma a forma de um conhecido emblema da húbris dantesca, de sua pretensão sem medidas, pretensão que seria absurda e mesmo um tanto ridícula se estivéssemos tratando de qualquer outro escritor: mas não no caso de Dante.
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Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.