Reportagem
  
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Dante - Poemas autobiográficos
A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor
por Eduardo Sterzi
[continuação]

Naquele trecho do poema, Dante, guiado pelo poeta romano Virgílio, chega ao Limbo, círculo primeiro do Inferno onde se encontram as almas boas que viveram antes de Cristo e que, portanto, não foram batizadas. É ali a morada pós-morte do próprio Virgílio, que vivera entre 70 e 19 a.C. A dupla desloca-se pela região, até que Dante avista, apartado dos demais, um grupo de homens; pergunta a Virgílio quem são, mas, mal este começa a responder, ouve-se uma voz que amigavelmente saúda o precursor: “Honrai o altíssimo poeta;/ a sua sombra, que partira, retorna”. “Quatro grandes sombras”, de aparência “nem triste nem alegre”, vêm em sua direção. Virgílio nomeia-os para Dante: “Com a espada na mão, olha o decano,/ à frente qual senhor a conduzir.// É Homero, poeta soberano;/ o outro Horácio sátiro que vem;/ o outro Ovídio e o último Lucano” (segundo a tradução de Vasco Graça Moura). As quatro sombras são, pois, os espectros dos maiores poetas da Antigüidade, daqueles que formavam, aos olhos de Dante (e de sua época), a “bela escola”.

Para se avaliar a desmesura com que Dante concebia o valor de sua própria obra, não se pode esquecer que não estamos, aqui, diante de um relato objetivo e desinteressado, mas de uma narrativa em primeira pessoa, na qual o próprio poeta figura-se como personagem principal. Conta nos Dante que, depois de terem conversado entre si por um tempo, Virgílio e os outros quatro autores voltaram-se a ele “com um aceno de saudação”, assim chamando-o à “sua fileira”, onde ele foi “sexto entre tanto siso” (sì ch’io fui sesto tra cotanto senno). Pela primeira vez na história, um escritor vernacular ousava representar-se como um igual dos grandes escritores da Antigüidade. A grandeza literária, que até então estava reservada aos clássicos gregos e latinos, era agora uma possibilidade para os que escreviam na língua de todos os dias.
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Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.