Reportagem
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Dante - Poemas autobiográficos
A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor
por Eduardo Sterzi
[continuação]

O descomedimento de Dante, ao colocar-se lado a lado com os maiores nomes do passado, tem uma importância crítico-escritural que vai muito além de seu interesse individual; conforme argumentou implica um balanço da literatura clássica e da sua função na cultura ocidental; pela primeira vez na Europa, Dante mostra a consciência de percorrer uma cumeada da história, isto é, de interpretar o momento da passagem do medievo à idade moderna; este é o sentido profundo da mundialização do cânone que Dante opera no canto IV do Inferno, no qual é representada, além daquela latina, a literatura grega na pessoa de Homero, e aquela vulgar na pessoa do próprio Dante. A peculiaridade do discurso dantesco sobre o cânone – e nisto consiste a sua carga inovadora e revolucionária e o seu excesso mesmo em relação à operação agostiniana de conversão do mundo clássico-pagão naquele cristão – é a de fazer coincidir a reelaboração do cânone com a revisão dos gêneros literários que o Medievo havia rigidamente fixado na rota Vergilii; Dante recodifica o gênero épico não somente em perspectiva cristã, mas também e sobretudo na direção do romance, a partir do momento em que a recodificação dantesca vai na direção plurilingüística, histórica e autobiográfica, perspectivas estas fortemente conotativas do romance moderno, o que é percebido perfeitamente por Boccaccio e por Petrarca, para os quais o intertexto dantesco é o lugar do diálogo e do reúso. É neste lugar e neste espaço que se constroem o sistema da literatura italiana e o advento da poesia e da prosa italianas e européias”.

Gianfranco Contini, que foi quem melhor percebeu a implicação mútua da antigüidade e da modernidade de Dante, o fato de que “a sua distância é ao mesmo tempo contraprova e garantia da sua proximidade vital”, bem o disse: “A impressão genuína do póstero, encontrando-se em Dante, não é de topar com um tenaz e bem conservado sobrevivente, mas de alcançar alguém que chegou antes dele”. (E.S.)
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Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.