Reportagem
  
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Dante - Poemas autobiográficos
A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor
por Eduardo Sterzi
sinopse Comédia “divina”
MUSEO DELL’OPERA DEL DUOMO/FLORENÇA
Dante e os três reinos, em tela de Domenico di Michelino, pintor da escola florentina (1465)
DANTE NUNCA ESCREVEU uma Divina comédia. O título pelo qual seu grande poema é conhecido não era aquele com que o próprio autor se referia a ele. Dante intitulou-o somente Comedìa, numa grafia em que os limites entre o dialeto toscano e o latim medieval não são nítidos. O adjetivo “divina”, proposto inicialmente por Boccaccio em sua biografia de Dante – em sentido lato, significando, então, algo como “grandiosa”, “ímpar”, “inestimável” –, só seria acrescentado ao título em 1555, numa edição saída em Veneza pela tipografia de Gabriele Giolito e sob a responsabilidade do erudito Lodovico Dolce – em sentido estrito, agora, indicando que a matéria do poema tinha cunho teológico.

A Comédia é composta de 14.233 versos decassilábicos divididos em três partes (chamadas em italiano cantiche; mal-traduzindo, “cânticos”), cada uma correspondendo a um dos reinos do além túmulo: a primeira (Inferno), com 34 cantos (um deles pode ser considerado introdutório a todo o livro); a segunda (Purgatório) e a terceira (Paraíso), cada uma com 33. No total, uma centena de cantos. Conferindo-lhes unidade, há o rigoroso esquema de rimas, que simula uma permanente ascensão do início ao fim da obra: a terza rima (ABA BCB CDC e assim por diante) que é invenção de Dante, não sendo encontrada antes em nenhum texto latino ou vernacular, mas logo depois usada por Petrarca e Boccaccio. (E.S.)
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Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão.