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Reportagem |
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| Dante - Poemas autobiográficos |
| A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor |
| por Eduardo Sterzi |
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MUSEU E GALERIA DE ARTE BURMINGHAM |
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| “A missão de Virgílio”, em ilustração de William Blake |
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[continuação]
Mas deixemos de lado a vida que não é obra e voltemos à Vida nova: desde aquele encontro precoce com Beatriz, no nono ano de suas vidas, Dante já se sente dominado pelo Amor, que lhe aparecerá, em visões, como um deus (versão medieval do Eros grego). O segundo encontro digno de nota se dá nove anos depois do primeiro, e é só então que Beatriz dirige a Dante uma saudação: ao ouvir as palavras de sua dama pela primeira vez, Dante sente-se “como inebriado” e, assim, recolhe-se à solidão de seu quarto (“al solingo luogo d’una mia camera”), onde a primeira visão de Amor lhe acossa em meio ao sono, numa combinação inextricável de alegria e angústia, doçura e terror: o deus lhe aparece, em meio a uma nuvem cor de fogo, na figura de um senhor, “de pavoroso aspecto a quem a olhasse”, e que lhe diz, em latim, “Ego Dominus tuus” (“Eu sou o teu Senhor”); nos braços, carrega uma mulher nua, que dorme, apenas envolta num leve tecido cor de sangue; Dante descobre ser Beatriz essa mulher adormecida e vê que ela traz numa das mãos um coração ardente, como se lhe dissesse ser o dele; e ela, de súbito, despertada por Amor, e sob suas ordens, passa a comer do coração de Dante; finalmente, Amor, que até então mostrava-se alegre (embora temível), começa a chorar, e, como relembra Dante, “assim, chorando, recolhia a dama nos seus braços, parecendo-me que subia com ela para o céu” (na tradução de Carlos Eduardo Soveral). Angustiado, Dante desperta e, refletindo sobre o significado do que vira em sonho, resolve escrever um soneto em que registrasse o encontro onírico com o deus Amor e com Beatriz, para depois enviá-lo “a muitos que eram famosos trovadores naquele tempo”, pedindo-lhes que decifrem a visão.
Morte de Beatriz ■ Temos aí, conforme Dante o relata, o nascimento da sua poesia, com o soneto “A ciascun’alma presa” (“A cada alma enamorada”). O soneto, cujo sentido, segundo Dante, não teria sido compreendido, então, por nenhum de seus leitores, marca, no entanto, o ingresso do neófito no círculo dos líricos florentinos, entre os quais se destacava Guido Cavalcanti (identificado, na Vida nova, somente pelas perífrases “primo delli miei amici”, “primeiro dos meus amigos”, e “mio primo amico”, “meu primeiro amigo”).
O que mais impressiona, do ponto de vista histórico-crítico, na Vida nova é o modo com o qual Dante consegue mesclar a narrativa da formação de sua própria poesia – e do seu reconhecimento, que é antes de tudo auto-reconhecimento, como poeta relevante no contexto inicialmente florentino, mas logo italiano – com uma narrativa mais ampla, que naquela outra se reflete e condensa, da formação da lírica vernacular européia. |
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| Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão. |
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