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Reportagem |
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| Dante - Poemas autobiográficos |
| A obra de Dante se constrói em torno de um núcleo autobiográfico, tendo sempre à frente um eu poético que coincide com o eu empírico do autor |
| por Eduardo Sterzi |
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CASA DI DANTE/FLORENÇA |
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| Detalhe de tela de Giovanni Mochi (c. 1310) mostrando Dante e Guido Novello da Polenta |
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[continuação]
Na progressão da Vida nova, em que Dante passa dos sonetos iniciais, orientados pela poética transpessoal do que ficou conhecido, segundo uma expressão da Comédia, como dolce stil novo (doce estilo novo), a uma poesia mais madura e individual, marcada pelo evento decisivo da morte de Beatriz, pode-se ver também uma ultrapassagem mais abrangente de uma série de procedimentos, formas e imagens legados pelo trovadorismo à lírica européia do século XIII.
A necessidade, poética e histórica, de superação do modo trovadoresco de rimar formula-se na Vida nova em palavras misteriosas do deus Amor; diz ele a Dante: “Fili mi, tempus est ut pretermictantur simulacra nostra” – frase que pode ser traduzida, aproximativamente, como: “Filho meu, é tempo de que nossos simulacros sejam postos de lado”. Simulacra, aí, pode ser traduzido também, como o faz Guglielmo Gorni, como “ficções corteses”, aludindo-se a ficções próprias da cultura dos trovadores originalmente occitânicos. Trata-se, em suma, para Dante, de trocar as imagens falsas (os simulacros) que povoavam a poesia imediatamente anterior – as imagens de amadas fictícias que não correspondiam a nenhuma experiência concreta, reduzindo-se muitas vezes a meras fórmulas retóricas – pela imagem verdadeira de Beatriz, imagem desdobrada simbolicamente, tanto na Vida nova quanto na Comédia, pela Verônica (“ymagine benedecta”): ou seja, pelo sudário em que estaria impresso o rosto de Cristo desde o Calvário, verdade tornada imagem, verdade gravada em sangue, como Dante concebe sua poesia depois da morte de Beatriz. |
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| Eduardo Sterzi é poeta e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com tese sobre Dante Alighieri e a origem lírica moderna. É autor dos livros Prosa (2001) e Por que ler Dante Alighieri (2008). Atualmente, realiza pós-doutorado na USP e prepara seu segundo livro de poemas, Aleijão. |
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